sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Dar graças pelo que (ainda) temos

Numa altura do ano em que a música estará mais presente, nos momentos que partilhamos, pelas acções de graças que damos ao que o ciclo solar que agora se reinicia nos deu durante o resto do ano, demos graças pelo planeta que ainda temos. Uma acção de graças, aqui por A. Bruckner.

O limite da infinitude e da viabilidade em Copenhaga

O limite, a procura e contínuo reestabelecimento das fronteiras da nossa existência (em todos os sentidos e dimensões em que tal possa ser considerado) demonstram-nos o que será porventura o maior desafio (imediato) com que nos deparamos: a preservação do paralelismo e do equilíbrio entre a infinitude da nossa missão vital e a viabilidade de que dependemos para a concretizar.
A viagem imaginária àqueles limites demonstra-nos que, independentemente da elevadíssima probabilidade de não estarmos sós no universo, o único lugar (num domínio que se designa, não necessariamente de real, mas de "possível e relativamente conhecido") onde podemos existir em plenitude é o planeta Terra - o nosso lar. Não temos alternativa a esta casa comum à qual estamos vitalmente ligados. Este ponto perdido num infinito oceano de tempo, esta única fonte de vida em que viemos a existir, hoje em risco, somos nós. A sonhar com o longe e o amanhã desprezando o solo primordial, procurando o desenvolvimento no esquecimento da história, perseguindo o infinito no desprezo pela viabilidade. Fazendo a apologia do conhecimento consentindo que se sacrifique o nosso património natural e vital, como outrora se incendiaram bibliotecas como a de Alexandria, por uma cegueira, hoje, por todos os motivos indesculpável.
Hoje, esta noite e nos dias vindouros, o respeito que demonstrarmos pelo nosso planeta será o mesmo respeito que demonstraremos por nós próprios. Sem ele, tudo terá sido em vão: das mais elementares conquistas humanas ao nosso futuro, e à possibilidade de perpetuarmos no tempo o testemunho do que somos. Desde o despertar auto-consciente onde iniciamos esta caminhada, até ao lugar em que nos encontramos.
Efectivamente, será a nossa própria finitude perspectivada, e real, que terá que tornar possível um dos mais importantes marcos na nossa história: aquele em que nos emancipamos da incapacidade de renunciar à voragem cega e egoísta do imediatismo, agravada pela desconfiança dos nossos irmãos e vizinhos.
Copenhaga não é hoje somente o centro do mundo, mas o centro da história que será escrita pelas mesmas mãos que seguram o destino de todos. Não existe margem de erro. Não há caminhos alternativos. Unamo-nos hoje, ou desapareceremos ajoelhados pela nossa própria degradação, na incauta e arrependida fragilidade de um morticínio que contemplará o horizonte sem alvor.
Salvemos a nossa Terra. Em nome dos nossos filhos, em nome do potencial fértil da confiança nos nossos vizinhos e irmãos de bem, na comunhão do respeito por um compromisso de e para todos, em nome da criança que todos fomos, incluindo os nossos líderes, mulheres e homens como nós, em nome das nossas e das suas famílias, e pelo que ainda poderemos vir a ser, se formos capazes de decidir hoje com esse coração de criança, mas com o desígnio de um guardião que protege tanto quanto ama. Porque é de amor, afinal, que se trata. Amor consciente no discernimento da constante introspecção ao seu sentido, e àquilo que em nós motiva a decisão.
Por todas as vidas e corações que pulsam neste preciso instante em toda a Terra, corações humanos ou não-humanos, atentos, desatentos; pelos recém-chegados à vida e pelos que dela se despedirão em breve, e que certamente optariam, no nosso lugar, contemplando o que passou, pela salvação dessa outra vida global que a todos define. A oportunidade de transcendermos a nossa própria finitude individual dizendo sim ao futuro colectivo. Ao futuro da vida que nos foi dada.

Aproxima-se o solstício de inverno. Aproxima-se o Natal.
Este é o período no qual os nossos avós, que colhiam o alimento da terra que comungavam, na sua lavoura e na compreensão dos seus ciclos, comemoravam o renascimento do "deus-sol", da vida e calor que este representa: o "deus-menino" simbolizado na tradição cristã que nos apresenta o nascimento do portador da palavra de vida, da ética de vida. A celebração da vida a par da ética que lhe dá valor. À representação pagã do símbolo da vida, o sol, a matéria primordial de cuja cinza remanescente veio a surgir a vida que hoje somos, numa forma de criação, corresponde hoje uma celebração anual que urge resgatar como o próprio planeta.
O nosso tesouro é imenso, e a responsabilidade de todos nós, em todos os continentes, em todos os lugares, é proporcional ao valor que a nossa herança natural contém. Todos celebramos a vida e os seus ciclos. Celebremos também, hoje, a sua salvação.
Será Natal em breve para as crianças, e estará renascida mais uma vez a esperança no crescimento dos dias até ao solstício de verão, que deveremos reaprender a ensinar-lhes. O Natal das acções de graças, em que os presentes que trocarmos deverão, mais do que nunca, e cada vez mais no futuro, representar a gratidão pelo que nos foi concedido, pela vida tão rara e preciosa que nos foi dada nesta infinitude cósmica em que heroicamente temos vindo a navegar.
Assim, num tempo em que o entendimento do significado profundo dos nossos próprios hábitos e tradições se perde no tempo, como as "sombras de antepassados esquecidos" de que nos falava C. Sagan, serão ironicamente, e mais uma vez, as nossas próprias escolhas que nos confrontarão com a necessidade imperiosa de sabermos regressar ao essencial.
Em Copenhaga, estão esta noite os nossos desejos. Sob a forma de reflexão, retrospecção, ou prece, para que quem representa cada nação ou cada povo se recorde que dar graças é, acima de tudo, estimar e proteger o que nos foi dado - a nossa terra-mãe.

O limite da infinitude que estendemos cada vez mais além, em cada luz, em cada sinal proveniente dos confins do universo, é cada vez mais a prova da nossa competência técnica, da nossa capacidade, e o substrato da consciência crescente do valor e da raridade da vida no cosmos. Preservemos essa vida. Viável e equilibrada. Pela nossa sobrevivência hoje. Pela nossa perpetuação no amanhã.

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Do amor

Creio que terá feito por esta altura cerca de oito anos que assisti, em S. Bento da Vitória, a A. Pizarro, com a ONP e M. Tardue, interpretando brilhantemente Rachmaninov.
Não necessariamente por ser de um dos últimos autores românticos (logo, entendido mais nostalgicamente), o segundo andamento do Concerto nº. 2 para piano e orquestra de Rachmaninov recorda-me o amor, quase retratado no seu motif. Se o amor sublime e profundo (não o banalizado, não o sequestrado do seu significado, no imediatismo sôfrego acicatado pela febril fuga à finitude existencial - na consciência violenta da inevitabilidade dessa mesma finitude, como em Hobbes, ou não), suspenso no tempo, pudesse ser musicado, então esse amor talvez fosse assim. Aqui, com G. Cherkin ao piano.

Sobre o saber e o comunicar

Sobre construção do saber, comunicação e superação dos limites da abstracção: Uma entrevista a Umberto Eco, para ler sem "afectação situacionista". Isto porque os termos "mudar" e "mudança" têm estado tendenciosamente impregnados de uma espécie de "significação parasita" que se reporta a um corporativismo para a "conversão transformacionista das massas", um "transformacionismo" no sentido de uma violenta e impiedosa revolução estética, mas também no sentido da máxima de Lavoisier, segundo a qual nada morre, mas se transforma. Ora, se as defesas deste organismo social que todos somos não responderem, o estado de cuidados intensivos em que se encontra passará a um estado transformado em benefício dessa outra forma de vida que a toma. De facto tudo é transformável. Mas o que não se transformará será o que se perder - o que assenta num todo irredutível, as nossas vidas.

A abertura trágica

O trauma dos tempos de escuridão, quando nobreza, princípios e valores soam a língua morta, tem um mérito: o carácter genesíaco do que é trágico, como um nascimento. Ou não tivesse sido o nosso próprio nascimento igualmente o nosso primeiro trauma. Uma abertura trágica para um caminho que vale tanto por si próprio!, e não apenas pelo horizonte que se constitui, que não mais deve ser do que um farol referencial.
Ensina-nos a mãe-natureza, nomeadamente através das sistematizações de conhecimento de base empírica, como o oriental Tao, que não há luz sem escuridão, que não há matéria sem não-matéria, como não há felicidade sem sofrimento. A vida é, e será sempre, dualidade de opostos complementares, que renascerá sempre das cinzas da brutalidade estúpida que, no seu efémero mas perigoso poder, a tenta eliminar ou formatar.
Venham todos os traumas e incertezas da vida, venha essa constante abertura de estradas, se tal significar não viver "preso em liberdade".
Aqui, a Abertura Trágica de Brahms ( 1ª parte e 2ª parte ), pela mão de Karajan.

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Poesia III - "Rimas imperfeitas"

Rimas imperfeitas

Pululam malhados trejeitos
Montados na geral indulgência,
Desmantelando como sirigaitas
A mais perfeita paciência.

E se o gorgomilo pigarra
Em inadvertida inocência,
Acham-lhe um desejo que brada
Suportados na sua ciência.

Não há alma que o não sinta,
Nem macho que o não deseje!
Todos estamos reprimidos,
Libertar-nos é seu ensejo!

- Prole do amanhã que somos,
Libidinosamente vos osculamos!
Adiram à nossa verdade – dizem – ,
Ou se apartam, que passamos!

E entretanto, no Ébrio,
Ficamos, nós outros, mantendo
Num incompreendido equilíbrio
O mal que vos trouxe sendo.


Rui Santos Silva
Porto, 23 de Novembro de 2009

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

A caixa de Pandora

Pandora abriu a sua caixa, e dela saíram os males do nosso mundo. Da prosa sobre o seu mito sabemos os males clássicos - as doenças, as catástrofes. Mas hoje, nos nossos tempos, não é o conto mas a observação atenta de uma realidade que nos apresenta os males dos novos tempos, que não são mais do que os desafios que testam a nossa força e a nossa coesão enquanto depositários de um modo de vida, de uma cultura, e de valores hoje como nunca postos em causa.
Pandora simbolizava o dom que, no seu livre arbítrio, tinha o poder de nos doar, ou não, os males que nos assolariam. Pandora abriu a sua caixa, e os males vieram ao mundo.
A Pandora dos nossos tempos não é deusa, mas paira numa mesma onírica terra-de-ninguém onde a responsabilidade, a consciência, a necessidade de tocar o sol como Ícaro, andam às avessas na escuridão de uma cegueira moral. Mas o passado - o tal que faz os terrores daqueles que se sentem ameaçados pelos seus ensinamentos - poderá mostrar à deusa contemporânea, não propriamente o caminho a percorrer, que é o do constante desafio de uma aleatoriedade a ser adestrada pela ética, mas aquele que já sabemos que não devemos seguir.
Personificará esta deusa, e as nossas deusas personificadas, a mãe natureza que lhes deu condição e liberdade?

Aproxima-se a votação parlamentar do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que na prática pretende constituir-se como a ante-câmara preparatória para se avançar com a adopção por parte de casais homossexuais, sendo a procriação assistida, desde a concepção ao cruzamento genético, o próximo passo. Tudo num emolduramento que faz adivinhar os perigos futuros de uma ciência destravada, que pretenderá mercantilizar tecnologia médica alimentada por propaganda transformacionista dos géneros humanos, e autorizada por um poder político mal frequentado, no fulgor de um "criacionismo hermafrodita" (1). O mesmo emolduramento que tem tornado possível que se tenha instalado todo um fomento heterofóbico (2), que se constitui como o lado negro do lobi gay que se faz hoje representar no poder.
Nesta matéria, aliás, é interessante evocar Alvaro Pombo, um escritor espanhol de 70 anos, homossexual assumido, que atravessou décadas de repressão franquista. Numa recente entrevista editada na revista Ípsilon, Alvaro Pombo afirmava que "Atravessamos um momento tonto e fútil. Pior: nalguns casos o orgulho da afirmação (gay) faz-se pela agressividade e pela vitimização artificial de cada homossexual." Acrescenta: "a verdade é que a prática homossexual se contradiz por natureza numa vivência que se procura normalizável. É por isso que sempre será difícil para mim acreditar na tradução jurídica do casamento como motivo de felicidade imediata. Se calhar bastava contarmos o número de divórcios que existem no casamento heterossexual para pensarmos duas vezes. Acrescente-se ainda o facto de que quando dois homossexuais decidem viver juntos o que prevalece ao longo do tempo é um projecto de companheirismo mútuo e onde as questões eróticas, sexuais muitas vezes não conseguem ser formatadas e a fidelidade assegurada. Neste sentido o casamento homossexual pode ser algo contra-natura."

Não seria melhor do que aqueles que critico se defendesse valores repressivos que ignoram o inalienável direito de qualquer pessoa a uma liberdade que, obviamente acabando onde começa a dos outros, deve ainda assim ser integral e plena de direito e oportunidade. E entendo assim que o reconhecimento público à liberdade individual, seja ela qual for (de expressão, sexual, etc) deve ser garantida aos cidadãos por um estado, e mais do que um estado, por uma cultura e respectiva estrutura de valores, que é o nosso mais verdadeiro e perene património, que se auto-denomine de humanista e progressista.
Nesta questão, devemos colocar como base de consideração o facto de que, antes de sermos hetero ou homossexuais, somos humanos, e não cabe certamente na cabeça de ninguém que se categorizem pessoas com base em orientação sexual. Mas também é de esperar que, no seguimento de justas conquistas sociais, não se passe a assumir a parentalidade como um direito de quem adopta. O direito aqui é todo das crianças - em terem segurança, estabilidade, e uma família tendencialmente com pai e mãe. Pois apesar de se admitir que é preferível que uma criança tenha a oportunidade de viver numa família atípica como alternativa a ter uma vida condenada à miséria, ou a não viver de todo, não se deve por isso confundir o desejável com o possível, e muito menos trocar um pelo outro.

Analisados distanciadamente estes discursos, proponho o seguinte exercício. Imagine-se uma situação potencial, na eventualidade de se concretizarem os erros legislativos que estão na forja: um casal de dois homens com um recém-nascido adoptado ou obtido por inseminação artificial (Dado que a manipulação da genética é a caixa de pandora que se conhece. Com o conhecimento que se tem das atrocidades já cometidas pela sociedade cientificizada no passado contra a natureza, contra o planeta, contra o próprio ser humano, e com uma tecnologia não muito inferior à actual, e sabendo-se o que se sabe dos mais recentes avanços em engenharia genética, ocorre-me dizer acerca disso o mesmo que disse recentemente Marinho Pinto acerca da justiça: Fujam!), e penso na forma e circunstâncias em que tencionaria um deles (ou ambos) dar o peito à criança. Alimentar-se-ia a criança com leite maternizado? Alimentar-se-ia a criança com peito de aluguer? Seria um dos homens (ou ambos, à vez) a dar o peito à criança no seguimento de tratamentos hormonais? A caixa de Pandora não tem fundo. Mas a questão não fica, no entanto, por aqui: como é que se pretende que a humanidade, que somos todos nós (incluindo homossexuais), se desenvolva nas mesmas circunstâncias, numa perspectiva de construção social, virando do avesso o paradigma concepcional e educacional do ser humano? Qual será o desenvolvimento psicossexual desse ser humano? Quais serão as suas referências precoces? De que forma se reconstituem figuras de vinculação precoce, como a insubstituível figura materna, imprescindíveis a sentimentos de segurança e pertença, determinantes não só para o um melhor desenvolvimento emocional da criança, mas para a noção que ela própria vai ter acerca do lugar que ocupa, na família, na sociedade e num padrão moral que também em si vai maturar? Como se desenvolverão as suas instâncias intra-psíquicas?

Estamos na adolescência civilizacional e moral no que respeita à progressão da nossa espécie (3).
Pelo que há questões que hoje, confrontados com estes desafios, nos devemos colocar e colocar aos outros: Pretendemos demonstrar o quê a quem? Olharmo-nos ao espelho e sentirmos o mesmo orgulho rebelde de um adolescente contrariante? Ensaiar os limites da tolerância social? Demonstrar que o ser humano é capaz de meter o seu futuro dentro de um tubo de ensaio? Onde é que se pretende ir com tudo isto? À ampliação da liberdade individual? E onde ficam os direitos dos outros - os direitos das crianças que não podem nem devem ser privadas de nascer num contexto que seja o ideal para o seu cumprimento específico e típico (mais uma vez não se está obviamente a falar dos casos pontuais em que a necessidade básica de uma criança em risco é sobreviver)?
Sendo certo que é diferente - sob vários pontos de vista (4)- uma criança ser adoptada por duas mulheres ou por dois homens (para não mencionar obviamente que a situação ideal é a presença de pai e mãe) o que pensará disto uma mãe?
O ser humano domina relativamente a tecnologia que conhece, mas não chegará nunca ao inatingível ponto de dominar a natureza. Conhece cientificamente pequenas parcelas da realidade, mas não o seu todo, nem o todo das consequências irreversíveis e desestruturantes que adviriam da irresponsabilidade de se confundir liberdade com direitos, possibilidades com experimentalismos incontornáveis. E o todo é o equilíbrio primordial que tudo influencia e tudo mantém em equilíbrio. O valor integral de um ser humano que nasce e vive o mais próximo possível daquilo que é natural.
Tudo isto não seria o fim do ser humano, não seria o nosso apocalipse, e certamente o ser humano adaptar-se-ia a qualquer circunstância, como sobrevivente que é. Mas já não seria certamente este ser humano que somos a restar de tudo isso. Que ser humano seria esse então? Para onde iria a humanidade nesse caminho?
É obviamente possível admitir, e não discriminar, situações que se desviem daquilo que deve ser assumido sem complexos como o ideal (porque é verdade que o é). Mas aceitar a possibilidade da excepção, que só confirma a regra, como uma norma só porque é possível, é no mínimo depreciativo do bom senso humano. O tal bom senso que é capaz de se descentrar das necessidades egoístas, das necessidades de satisfação pessoal em detrimento de um melhor futuro para a humanidade. Não concebo ouvir certos indivíduos afirmarem que deveríamos, por razões de compaixão, ser todos vegetarianos, e simultaneamente querer sacrificar os direitos de quem ainda não nasceu por mera satisfação egoísta de uma minoria.
Quem quer ser diferente que o seja, mas não pode daí advir que os outros tenham que se sentir vinculados a esse caminho nem forçados a serem também diferentes.

Assim, no que concerne ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, subscrevo o teor de um recente editorial do jornal Expresso online. Nesse texto, o(s) autor(es) sustentava(m) essencialmente a ideia de que, sem colocar em causa o direito à não discriminação social com base na orientação sexual, o casamento "é uma construção social natural, e não algo que flutue ao sabor de quem legisla". Algo semelhante ao Pacto Civil de Solidariedade, introduzido em França em 1999, através do qual qualquer casal hetero ou homossexual pode estabelecer um pacto de união, legalmente celebrado, equiparado ao casamento em todas as garantias, excepto na de adopção de crianças (cuja adopção não é um direito de quem quer adoptar). Em França, tal medida resolveu a discriminação sobre casais homossexuais, que é o que se pretende, e o papel social do casamento não foi degenerativamente adaptado.
Entenda-se, assim: à semelhança de diversas actividades humanas, rituais ou não, como algumas associadas ao culto da relação do ser humano com a natureza, o casamento traduz uma união fértil basilar numa construção/manutenção social congruente com a sua própria sustentação natural holística. Ou seja, a substituição da forma como o ser humano veio a ser o que é por "módulos de comportamento social" que adaptem uma globalidade típica a uma individualidade não típica, é aceitável sob o ponto de vista do respeito pela não discriminação social da diversidade, mas já não o é sob o ponto de vista de uma mudança que visa pressionar a vontade pública a normatizar-se por referenciais que, não sendo maioritários nem representativos da vontade maioritária, têm a coesão típica de um grupo que, em lobi de poder, tem procurado condicionar a sociedade em função do seu projecto particular.
O ser humano é o que é, vai aonde vai, e deve poder escolher, na sua liberdade, viver como quer, desde que isso não arraste outros no processo (e processo, aqui, é um termo não escolhido ao acaso). O ser humano incorpora em si dinâmicas de mudança, mas não pode ser reduzido a um objecto científico, a uma célula estaminal (possibilidade agora tão em voga que acaba por transportar a sua ideia de potencial para uma certa filosofia de vida, influenciando puerilmente o pensamento quotidiano sobre as possibilidades de desenvolvimento humano) que se transforma em quase tudo só porque pode. No que toca ao nosso futuro, enquanto espécie, "Querer é poder" não deve nem tem que significar "Poder é querer".
Rareiam infelizmente, os momentos-chave em que o ser humano é capaz de tirar a maior lição de todas das opressões: a que nos mostra que nenhuma boa intenção resiste ao imediatismo do atropelo dos direitos à autodeterminação, ao respeito, à liberdade. Como escreveu Miguel Sousa Tavares no seu livro "O Rio das Flores", "temo que a liberdade se torne um vício". Aplico aqui a expressão, não me referindo aos vícios bons (porque os há - todos os que nos podem, de alguma forma, nutrir sem nos subtrair qualidade ou liberdade), mas no sentido em que o exercício da liberdade se torna viciado, porque adulterado, por maus meios para atingir supostos bons fins. Ora, amar a liberdade é amar bons fins através de bons meios, pois não há bons fins sem bons meios. Foi essa lição de vida que me fez sempre fugir de qualquer doutrina que se torne autofágica na fatal consequência do esvaziamento do seu sentido. Como uma estrela que, na sua densidade, se devora a si própria colapsando-se num buraco negro, assinalando aquilo a que afinal não conseguiu dar lugar.
Os meios afectam os fins, e não o contrário.

Mas não há mal ("dor de crescimento e de maturação") que sempre dure. Ou não tivesse restado na caixa de pandora, libertados todos os males e feito o contra -fogo limitador dos seus efeitos, por fim, no seu fundo, a esperança.
Se há tempos para se lutar pelo que se é e tem, esse tempo é hoje. O tempo de serenamente se organizar as vontades e os recursos de todos em proveito do nosso futuro e da sobrevivência da nossa cultura e do nosso modo de vida. Ocorre-me o exemplo do povo judeu, que do nada, constantemente em condições terríveis, da vacuidade imposta pela sombra de morte que os assolou desde sempre, construiu uma nação. Porque souberam ser unidos quando tudo apostava contra eles, colocando em primeiro lugar o seu sentido de comunidade e o amor transgeracional pelos seus valores. Com a constante ameaça da espada da perseguição, sobreviveram, prevaleceram, e viveram para fornecer à humanidade valores que também são os nossos (no nosso caso, somos efectivamente herdeiros de uma civilização ocidental que mistura profundíssimas raízes ancestrais europeias - e suas tradições pagãs - com a tradição judaico-cristã), o conhecimento dos mais ilustres pensadores de que há memória, que contribuíram para o que de mais importante sabemos acerca de nós próprios e do universo (A. Einstein e S. Freud são apenas dois dos mais conhecidos exemplos).
Não tenham a mínima dúvida: o modo de vida, os valores, o que há de bom na nossa cultura, prevalecerão.

Acendo uma cigarrilha, e na espessura do seu fumo imagino uma nebulosa estelar longínqua. Onde o lugar que vejo pode estar num espaço-tempo que, ainda não chegado à minha dimensão, pode já existir. Serei eu pai nesse lugar? Talvez. Posso, sem o saber, ser pai de um rapaz que se veio a tornar homossexual. E, em boa verdade, gosto de pensar que nesse lugar eu sou um pai digno do nome, e amo o meu filho para além da forma como ele escolheu viver. Mas acima de tudo, um pai que, a par da inestimável presença da mãe, não se demitiu do seu papel de guardião indefectível do direito que um filho tem a, no mínimo, ter a oportunidade de nascer e se desenvolver num espaço vital adequado e inexpugnável, e num contexto em que se pode cumprir nos valores e na "geneticidade" que são a sua inalienável e insubstituível herança.


Post Scriptum:
Uma nota acerca da recente perda de um ser humano manifestamente bom.
É pesada a angústia e o medo quando sentimos o nosso mundo desmoronar, quando o sentimento de impotência perante acontecimentos parece estreitar o nosso espaço, afunilando e mingando o nosso caminho.
O recente desaparecimento de Robert Enke foi uma lástima, porque invariavelmente perdem-se grandes seres humanos em momentos da vida que são apenas de convulsão transitória, e nada mais.
Como escreveu W. Shakespeare, "Life is but a dream" - A vida é um sonho -, e um sonho não é mais do que sonho. E assim sendo, tudo isto será apenas um sonho para ser sonhado, pelo que não faz sentido desistir. É por esse motivo que vale sempre a pena lutar. Nem que seja pelo último grão de areia que reste do nosso mundo e dos nossos valores, pois de um grão de areia se regenera um mundo. Enquanto existir bondade, lealdade e coragem neste mundo, uma memória, ténue que seja, dos valores que simbolizamos com as nossas vidas e a nossa existência, vale sempre a pena, porque há sempre esperança.



(1) Um criacionismo hermafrodita que este artigo vem desvelar de forma inquietante. É evidente que sedentarismo, poluição e degenerescência alimentar (sem falar nos OGM ) precipitam o ser humano para uma descaracterização específica. Mas só um processo de intenção que procura arquitectar um ser humano contrário ao percurso que filogenicamente sustentou o seu equilíbrio biológico, é que pode conceber um hermafroditismo atingido em apenas décadas. A demência patente em tais pretensões só é ultrapassada pelo irrealismo da sua concretização natural. É (não só mas também) a estas mentalidades que está entregue a ciência e a investigação. A alegoria do cientista louco toma lugar, hoje, no real, num radicalismo perigoso, que não podendo fazer-se substituir à natureza, e ser construtivo, ou não fosse a natureza inimitável, pode ter a capacidade de destruir degenerativamente o que temos e somos.
Trata-se por isso de uma doutrina que procura semear no fértil solo da tentação social de mudanças tão efémeras quanto o é tudo o que é estranho a um equilíbrio vital, mitos como o da falácia da homossexualidade geneticamente determinada.
Quanto a este suposto determinismo genético (e tentando não tornar a desconstrução desta falácia em algo demasiadamente hermético), importará analisa-lo com a introdução de alguns conceitos simplificados:
O comportamento sexual, como qualquer outra dimensão do comportamento humano não é geneticamente determinado. No entanto, insistir nessa falácia é a única via para manter o logro de que o comportamento homossexual é geneticamente determinado, a par do culto da ideia de que todo o homem é "homossexualizavel", ou bissexual por natureza. Ou seja, algo como a proposição com premissas erradas: "Zezinho é homem" e "Zezinho é canhoto", logo, "todos os homens são canhotos".
Salvo os óbvios condicionalismos genéticos, peri-natais, congénitos, ou relativos a um atípico desenvolvimento de caracteres sexuais secundários motivados por comprometimentos endócrinos, a determinação genética do comportamento sexual manifesta-se fenotipicamente através de imprintings e instintos inatos. Não existem "instintos sexuais homossexuais" inatos num homem, tampouco adquiridos. A homossexualidade é um comportamento, e não um instinto. Existem, sim, condicionamentos obtidos a partir da influência do meio, através das experiências de vida. Logo, o comportamento sexual é culturalmente determinado. Quando muito (e numa análise etológica), no homem, sendo o "género fálico", existe um instinto para a dominância que pode resultar em comportamentos de dominância de índole sexual (ou não fosse, no género masculino, o instinto sexual mediado de forma análoga à agressividade, no que toca a complexos cerebrais e hormonais). Logo, sendo o homem portador do símbolo socio-cultural e arquetípico de poder - o falo -, fomenta, nas lutas pela dominância grupal, derivas assexuantes, isto é, que sub-categorizam e efeminam outros elementos masculinos derrotados na luta pelo poder e pelo estatuto, criando assim, nesse exercício de dominância intra-género, uma clivagem castrante.
A alteração de respostas (comportamentos) sexuais prende-se também com a "inadequação" à pressão do contexto (da influência do meio) em substituição de outras que são reforçadas por condicionamento operante. Por exemplo, se numa experiência colocarmos um ratinho numa gaiola em que recebe um choque sempre que tentar acasalar com a ratinha, e que recebe alimento sempre que tentar "acasalar" com ratinho, vai tendencialmente passar a evitar a ratinha, pois a necessidade básica de auto-preservação e evitamento de sofrimento tenderá a sobrepor-se à necessidade de "satisfação sexual" habitual.
Conforme anteriormente referido, é evidente que casos existem em que geneticamente há um design que favorece indiferenciação na construção fenotípica, como por exemplo determinados condicionalismos hormonais e subsequente desenvolvimento de caracteres sexuais secundários. Mas não se pode confundir isto com "comportamentos geneticamente determinados".
A obtenção fenotípica através da combinação de programação genética com estímulos pode ser exemplificada através das diversas doenças congénitas derivadas de comportamentos de risco em mães grávidas (por exemplo, comportamentos toxicómanos ou alimentares).
Não existem comportamentos geneticamente determinados, pois, faz parte da própria noção de "comportamento" que o mesmo seja uma resposta ao meio. A um meio que circunstancia toda uma multidimencionalidade (de cognição, emoção, afectividade) que é fenomenologicamente também ela o meio. O comportamento é uma dimensão operativa a posteriori e não constitucional a priori.
É uma falácia, por isso, dizer que existem comportamentos geneticamente determinados. Uma falácia para, como diz o povo, "enganar o menino e comer-lhe o pão". (A homossexualidade/bissexualidade feminina tem raiz num enquadramento constitucional e psicológico diferente, se bem que é igualmente vulnerável aos mesmos princípios de modificação referidos)
Esta é apenas uma entre várias falácias sobre a sexualidade humana que, a par da falácia da irreversibilidade da orientação sexual (tema que irei desenvolver brevemente), tem feito encapsuladamente caminho.

(2) Daphne Patai, docente e investigadora feminista, autora da obra "Heterofobia: Assédio sexual e o futuro do feminismo" (1998), em que denuncia regulações derivadas de assédio sexual "draconiano", e afirma que o feminismo actual está inquinado por uma heterofobia que se constitui numa acentuada hostilidade às interacções sexuais entre homens e mulheres, num esforço de as suprimir através de uma micro-gestão encapsulada das relações quotidianas.
Apesar de não conhecer a fundo a obra da autora, diria que tal deriva da apropriação do pensamento feminista pelo lobi gay, que na agenda própria que tem para uma transformação social, cultiva uma ultra-genitalização da sexualidade e ultra-sexualização das relações humanas num pendor homossexual.

(3) Durante o seu percurso, o ser humano trilhou um caminho evolutivo que confortavelmente ainda se tenta supor ser num vector recto, de circunstâncias e acontecimentos irrepetíveis. Mas a realidade está mais próxima do pensamento de G. Vico , historiador italiano, que defendeu que o percurso histórico progride “em espiral”. Uma sucessão que, não se repetindo, acaba por tornar previsível o percurso humano. Dessa forma, não sendo os acontecimentos exactamente repetíveis, o curso histórico obedece a um padrão coerente com os acontecimentos passados, e consequentemente coerente com o que é próprio à humanidade: não conseguir fugir de si própria. E por toda a história, a reflexão sobre o bem, e a forma de o atingir em vida, vem motivando o pensamento humano desde tempos imemoriais, constituindo-se através de vários períodos, nos quais progride ainda hoje nessa mesma oscilação espiral: do logocentrismo da antiguidade, período em que se considerava o bem como sendo atingido através do conhecimento, passando pelo teocentrismo medieval e moderno - quando se considerava o bem como atingido através de Deus -, até aos pensamentos iluministas e humanistas que deram lugar a um antropocentrismo que tornaria cada vez mais o homem e as suas necessidades na medida de todas as coisas, sendo aí o bem atingido através do próprio homem. O tempo contemporâneo e a massificação na conquista de direitos e acesso a bens materiais conduz-nos ao individualismo ("caso pontual" do antropocentrismo) que se materializa hoje na evidente "adolescência moral" que atravessamos. O tempo do experimentalismo, da delapidação e destruição do património natural - da fauna e da flora - que nos foi legado, dos riscos irreflectidos na interferência de equilíbrios nucleares à vida tal qual a conhecemos, ameaçadores da nossa civilização, das nossas diversidades e das nossas culturas, em todos os sentidos.
Está irremediavelmente vedado ao ser humano evitar as oscilações quase sinusoidais da sua progressão no tempo. Mas tal não implica que não possa atenuar os efeitos colaterais dessas oscilações, em parte provocadas pela própria inconsciência humana, preservando-se e à sua integridade, quando souber cultivar um "ecocentrismo naturalista", cumprindo aí a necessidade de respeitar a realidade holística em que tem lugar. Um respeito, aí sim, profícuo por si próprio.
Ao esforço de subida e ao fulgor da chegada aos cumes da liberdade, deve contrapor a sensatez da desaceleração que evita a queda no vale das tentações totalitaristas e absolutistas, anexionistas, destrutivas, esterilizantes, banalizantes, que traem a própria diferença livre onde se alicerçou um dia aquela liberdade.
Mais uma vez, a recapitulação, o sábio mimetismo, do que é natural (que insistimos em não aprender com a mãe natureza ou com algumas espécies que consideramos inferiores) consiste também, em liberdade, em saber necessariamente conviver com a heterogeneidade constitutiva do universo. A heterogeneidade dos planetas, da verdade astrofísica, da verdade biológica, da verdade cíclica e renovadora da natureza, a recapitulação mimética de tudo isso em nós, através de nós, e no nosso comportamento social.
Só num naturalismo, em que “imita” a natureza (ou o que é natural), o ser humano se encontrará consigo próprio. Só na compreensão dessa imitação compreenderá o alcance da sua liberdade e das suas limitações. Em certa medida, é a nossa limitação que dá lugar à nossa liberdade. Paradoxalmente, somos livres porque somos “limitados“, sendo essa “limitação” uma dádiva, uma “bênção” vital. Só na limitação da nossa dimensão temos ocasião espaço-temporal, "metafísica", para percepcionar a parcela de realidade na qual podemos exercer uma forma de existência apreensível. Tudo o que seja a negação dessa limitação é contra-natura, pois solicita ao ser humano o que este não tem condições de fornecer. Ou seja, não é contra-natura querer ser livre - pois o desejo de liberdade é natural por si, como consequência de um livre arbítrio próprio do ser humano - mas é contra-natura a destruição dos equilíbrios naturais que nos dão dimensão, para neles tentarmos ingénua e infrutiferamente erigir libertacionismos tão efémeros quanto artificiais - a liberdade de impor a nossa liberdade aos outros através da destruição de tudo o que não nos representa ou identifica.

(4) Independentemente do simplismo com que se utiliza a visão jungeana acerca do "anima e animus", presentes tanto no homem como na mulher - que obviamente significa que tanto homens como mulheres têm a marca genética do homem e mulher que foram os seus ascendentes -, o masculino não é (nem nunca será, mesmo espartilhado e esquartejado por experimentalismos endocrinológicos ou genéticos) a simetria ou o alter do feminino, da mesma forma que o Y - letra e cromossoma - não é simétrico do X, mas seu complementar.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Caso do Colégio Militar: um ponto de partida para uma reflexão sobre a sociedade

Independentemente do dever de uma compreensão aprofundada sobre os incidentes no Colégio Militar, nos recentes episódios de agressões a alunos por parte de outros mais velhos e graduados, há a necessidade de ir à motivação mais primária das manifestações que o caso provocou.
(Mesmo quando o que acontece toca o surreal, a óptica da razão permanece como a abordagem certa, ou não fossem algumas surrealidades o fruto de razões que em si se escondem.)

Antes de mais, importa sublinhar que a mais importante e indiscutível salvaguarda no meio de todo este caso é, obviamente, o bem estar das crianças e a sua protecção, no sentido em que, se por um lado é legitimo pensar uma educação e uma estrutura de valores em que a nossa sociedade deve assentar, a sociedade constituída pelas famílias que se revêem nos princípios de educação que incute honra, lealdade, companheirismo e disciplina, por outro lado a transmissão desses princípios não pode ser feita colocando em perigo a integridade das crianças, traindo os princípios que deseja veicular. E nessa questão, ninguém está acima de suspeitas, ninguém está isento de transparência.
Não é aceitável achar-se banal que se furem tímpanos de crianças (ou de adultos que sejam) à estalada, conforme já li algures num blog, num depoimento de alguém que se dizia ex-aluno do colégio, militar, pai e avô.
Houve a notícia, houve o conhecimento público, e está em curso o apuramento da verdade e das responsabilidades.

Obviamente, uma educação militar não pode nem deve ser uma educação literalmente espartana, pelo que erros graves devem ser corrigidos e evitados. Pois, apesar de tudo, para além de se tratarem de futuros adultos e potenciais militares, estão ali, acima de tudo, crianças.
Mas a posterior diabolização de uma instituição e dos valores que esta representa, numa notória encenação que procura viciar a análise desta situação, vem muito a propósito de interesses que vêem em instituições como o Colégio Militar uma ameaça, pelo facto de ser uma reserva de valores nunca como hoje tão odiados e tidos como um alvo a abater.
A partir de um incidente que (a julgar pela enorme quantidade de pais que se dizem satisfeitos com a presença dos seus filhos no colégio, reveladora de que se terá tratado de um infeliz caso pontual) se impõe corrigir e não repetir, assisti, de um momento para o outro, à profusão dos argumentos que já vão sendo habituais: a culpa é dos conservadores, dos anti-progressistas, insensíveis e misóginos machistas que são as pessoas com uma educação e um comportamento típicos, dos primatas brutos, destituídos de inteligência ou sentimentos. Como se a educação de índole militar fosse uma fábrica de desvirtuação, uma escola de maus hábitos ou fomento de maus instintos.

Apesar da discussão dos incidentes, e dado o teor que transpareceu das diversas manifestações, e dos vezeiros protagonismos políticos de ocasião (como se a preocupação com os maus tratos pudesse ser exclusivo de um só partido político), cujas conhecidas bandeiras só adejam ao toque dos hinos que se lhes conhecem, quer-me parecer que o grande pecado do Colégio Militar, que as doutrinas da pós-modernidade (ou da hipermodernidade, como diria Lipovetsky), uma certa "nouvelle formatation social" libertária, não perdoam é o facto de essa instituição, entre outras, tal como a maioria das famílias, ser depositária de um espírito que educa jovens (neste caso rapazes) numa masculinidade típica, que se cumpre no seu inatismo, que repentinamente parece ser a raiz de todos os males do mundo, por promover uma formação assente em valores que estão hoje em oposição a absolutismos castradores que procuram desgastar o modo de vida de quem se identifica com o que assenta verdadeiramente, aí sim, na complementaridade de diferenças e não na diluição das mesmas num plasma de indiferenciação empobrecida.


Post Scriptum:

Vejo erguerem-se vozes, com ou sem responsabilidade política, numa crítica acutilante a tudo o que as instituições depositárias e promotoras de princípios de vida de uma estruturação tradicional, num momento da vida social em que um silêncio esmagador deixa passar sem crítica ou denúncia os condicionamentos que muitas pessoas sofrem, em contextos que vão desde o laboral ao privado, no sentido de deixarem de gostar de si próprias como sempre foram, para passarem a ser o lastro dos costumes e vícios de grupos de pressão que, devido a um apuramento do seu funcionamento endogrupal, fortalecido e adaptado por força de perseguições de que inquestionavelmente foram vítimas no passado, se foram impondo, e nos impondo as suas regras.

Relativamente ao ser humano, e à interferência nos seus percursos evolutivos importa não esquecer que, incontornavelmente, tudo o que façamos com nós próprios deve passar necessariamente, não por transfigurações do ser humano na sua forma, manipulando perigosamente (geneticamente, endocrinamente, anatomicamente, socio-psicologicamente) um equilíbrio ancestral que é inerente à nossa própria condição, mas por dotar o seu comportamento de uma ética efectiva.
É ilusório o sentimento de controlo dos rumos do ser humano, não só pelo carácter irrealizável do ilusório, mas porque a partir desse momento, somos já nós próprios um instrumento das nossas próprias tentações maquinadoras.
Da mesma forma, quando procuramos controlar quem ou o que não entendemos, estamos fatalmente a redundar na perda do controlo de nós próprios enquanto espécie.

Aqui, explicitar o implícito, preenchendo silêncios, identificando o que se passa pelo seu devido nome, é um exercício que pode ter o condão especial de fazer a realidade ver-se ao espelho. A partir daí, nada mais será igual ao que iria ser.

A coexistência entre culturas e modos de vida só é possível na tolerância, não só da existência, mas do espaço vital do outro, e nunca através de aculturações anexadoras. Importaria que os pseudo-progressistas tivessem isso em conta antes de atirarem a matar sobre os modelos educativos que têm formado repetidas gerações de pessoas valorosas, seres humanos integrais e íntegros. Suficientemente valorosos, afinal, para carregarem nos ombros a culpa de toda a defectividade humana - até da dos seus críticos mais impiedosos.

A paz é um processo construtivista, uma construção inacabada, produto constante das dinâmicas, lutas, conflitos que necessariamente constituem a vivência humana. Aos contactos com as novas realidades, sucedem-se as reacções, as adaptações mútuas, numa constante busca de um equilíbrio.
É o caminho que se faz.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

“os esquizofrénicos”

Ao contrário do que é habitual, por circunstância de ter estado na manhã de ontem num local em que esse programa estava a ser exibido, aconteceu ter assistido à conversa entre o Prof. J. Pinto da Costa com os apresentadores do programa de entretenimento matinal da RTP1.
No âmbito de uma conversa sobre um matricídio que terá sido perpetrado por um indivíduo que, pelo que percebi, alegadamente sofre de esquizofrenia, pude observar incrédulo à transformação de um aparentemente inofensivo discorrimento sobre um crime invulgar com contornos dantescos, numa exibição lamentável de desatino e descomedimento.
O caso foi só o ponto de partida para, nas asas da irresponsabilidade (a que me custou bastante assistir, em particular por ter tido lugar num canal que é público, o que onera ainda mais a responsabilidade do mesmo), se ter passado para um discurso profundamente verberador para quem sofre de doenças mentais, que apelava a uma espécie de vigilância cívica contra “os esquizofrénicos”, esses que podiam, de acordo com o apresentador do programa, atacar ou matar em plena rua.
À impertinência do conteúdo e forma das questões lançadas, o convidado, insigne professor de medicina e psicologia forenses, ia escrupulosamente tentando responder e rematar o despropósito dos zotes comentários que eram feitos pelo apresentador, da melhor forma que podia, nomeadamente esforçando-se para que dali não saíssem generalizações estigmatizantes, que reduzissem seres humanos a horripilantes depósitos patológicos.
Não só como pessoa, mas como académico de uma disciplina que, entre muitas outras atribuições, se dedica ao apoio e tratamento de pessoas portadoras de doenças mentais, fiquei estupefacto mediante tal exibição de insensibilidade e ignorância.
Obviamente que o crime hediondo pode e deve ser analisado e discutido com o propósito da sua compreensão. Mas faze-lo contribuindo para uma conotação da doença mental com crimes sórdidos, com o dantesco, dando espaço a equívocos, interpretações abusivas, e a um potencial de reactividade pública aversiva aos portadores de doenças mentais, era algo absolutamente dispensável.
Temas sensíveis não deveriam ser tratados levianamente, em condições que deixassem espaço a tais omissões e imprecisões que só agravam a pesada estigmatização que os portadores de doenças mentais, e suas famílias, já tão injustamente suportam.
Não se deve ao mero acaso, certamente, o enorme fosso que distingue profissionais que sabem o que fazem e do que falam, em contextos que abordam temas de elevada sensibilidade social, como é o caso dos jornalistas, de outros cuja preparação para abordar de forma pertinente questões profundas e sensíveis não vai além do mais frívolo senso e formação tarimbeira, sem o mínimo balizamento ou constrangimento etico-deontológico.
A estes saltimbancos do vulgar senso, alguém poderia dizer que “os esquizofrénicos”, para além de seres humanos (por conseguinte, dotados de sensibilidade humana), são pessoas (mulheres e homens, adultos ou adolescentes) portadoras de uma condição que, por variadas circunstâncias de vida, pode abater-se sobre qualquer um de nós. Não são exemplares de uma subclasse de rebotalho humano, merecedores do anátema e da ostracização para vales longínquos, como leprosos. Se alguns de nós, por força da genética, educação ou formação vital, são particularmente imunes ou extraordinariamente resilientes às barbaridades quotidianas que são cometidas pela ignorância cruel de alguns (por exemplo, por parte de quem, para além de não saber do que fala, o faz com uma irresponsabilidade incompatível com o poder que lhe é conferido pelo tempo de antena de que dispõe, regurgitando para dentro dos lares de quem o vê e ouve, nomeadamente doentes e/ou respectivas famílias, o mais boçal e ignóbil comportamento relativamente a pessoas que lutam diariamente contra dois fortes inimigos: por um lado, a doença, e por outro, a incompreensão e desconhecimento da generalidade das pessoas relativamente às doenças mentais, sua natureza e características, que por si só, sem necessidade de “lenha” adicional, já bastam), outros há que, infelizmente para todos, (já) não o são.
O que poderia e deveria ter sido dito aos tele-espectadores (e que o convidado do programa ainda procurou fazer, numa tentativa de conferir uma réstia de razoabilidade e dignidade ao que ficaria da conversa) sobre a esquizofrenia ou outras doenças mentais seria, por exemplo, algo acerca da completa injustificação em temer pessoas portadoras de doenças como a esquizofrenia, da necessidade de não se julgar nem contribuir para julgamentos dessas pessoas com base naquela condição; que sim, pessoas portadoras de esquizofrenia podem cruzar-se connosco em qualquer local, porque efectivamente são pessoas como todas as outras, que têm vidas normais, que trabalham com competência e brio, que amam e são amadas, que são filhos ou pais de alguém, que têm projectos e aspirações de vida, que são tão sensíveis quanto se pode ser, como todos podemos ser. São, afinal, pessoas normais, traídas por fragilidades (bioquímicas, engramáticas) e falibilidades existentes em todos nós, sem excepção.
Se há situações em que faz sentido o provérbio romano que diz “não vá o sapateiro além do sapato”, esta foi uma delas. Para falar de bricolage, culinária, ou outras trivialidades, o apresentador em questão serve na perfeição. Para assuntos sérios, que exigem o mínimo de estrutura ética e de informação, manifestamente não.

Restam duas breves observações:

1. Todos os esforços são poucos para a obtenção de uma maior dignidade no tratamento e no entendimento da doença mental. O projecto Porto Feliz (que a autarquia do Porto foi forçada a interromper pelo corte do apoio por parte da governação socratista, mas que irá felizmente retomar, ao que tudo aponta), mais relacionado com a doença mental como uma frequente consequência de comportamentos aditivos, e a Associação Encontrar+se, são desse mesmo esforço dois digníssimos exemplos.
Por força do trabalho de profissionais de saúde, investigadores científicos, familiares de crianças e adultos portadores de doenças mentais, e de todo um conjunto alargado de pessoas que dedicam grande parte das suas vidas a estudar e a procurar soluções para os dramas pessoais, familiares e sociais que decorrem da doença mental, estas patologias têm, cada vez mais, tratamento ou cura. Já defeitos de personalidade e de carácter, infelizmente, não.

2. O respeito que tenho pela dita “loucura”, não tenho por uma certa estupidez adaptativa, tantas vezes perversa, amoral e criminosa, muitíssimo perigosa, ao contrário dos "ameaçadores esquizofrénicos". Pois, com relativa frequência é o "louco", não aquele para quem vale tudo para atingir um fim, mas aquele a quem a vida já espoliou de tudo o que a maior parte de nós, ingenuamente, considera como irreversivelmente adquirido.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Ecce Saramago Dei

O canal televisivo RTPN lançou hoje a questão: "DECLARAÇÕES DE JOSÉ SARAMAGO: IDEOLOGIA OU PUBLICIDADE?"

1. Ideologia e publicidade simultaneamente - Ideologia enquanto o culto da sua fé na inexistência de Deus (ateísmo implica fé na inexistência de Deus, logo, numa semelhança simétrica ao teísmo, é uma forma de fé em algo igualmente impossível de demonstrar), publicidade enquanto propaganda quasi-evangelizadora da sua própria ideologia, manifestada numa crítica moral antropomórfica acerca da imagem e dos costumes sociais de Deus (as epifanias divinas deveriam, segundo Saramago, acontecer em mesas de café [*]). Isto para além da publicidade que o prurido generalizado acerca das farpas de Saramago fez incidir no produto intelectual que o escritor deseja obviamente comercializar.

2. Quer se goste ou concorde com ele, quer não, Saramago será tudo excepto um "zé-ninguém reichiano" ou um "parasita mangas-de-alpaca" que se alimente de um aparelho de estado pesado, viciado no poder ou simplesmente no pequeno poder. É, sim, um dos mais ilustres filhos da liberdade de pensamento e do virtuosismo literário da civilização ocidental, pelo que a crítica furiosa à sua liberdade de expressão só pode assentar em intolerância pura e numa relativa incompreensão da sua obra. Como diria certamente Nemésio se estivesse connosco, guerra à ideia e paz ao homem.

3. Não sendo o mundo um lugar perfeito, e tampouco o sendo o ser humano, a fé, como outras dimensões da cultura humana, tem aspectos negativos e positivos. Ocorre-me pensar nos aspectos positivos, que têm nomeadamente contribuído para que milhões de pessoas em todo o mundo se ajudem e entre-ajudem nas dificuldades inerentes a uma existência na esmagadora maioria das vezes injusta, dolorosa e incompreensível. Assim, se a Saramago está reservado o papel de "advogado do diabo", só lamentavelmente não está reservado o papel, não necessariamente de "advogados de Deus", mas de advogados das boas obras feitas em nome de uma "ideia de Deus", para além da fé na sua existência, aos que têm gasto latim a ataca-lo como indivíduo ou cidadão.

4. Por mim, e subscrevendo algo dito em tempos pelo Prof. M. M. Carrilho, digo no meu modesto agnosticismo, e sem desprezo pela legítima discussão metafísica em liberdade de expressão, que não chateio Deus e Deus também não me chateia a mim.

5. Não, o teísmo não é contrário ao espírito crítico quando tem o seu inevitável lugar próprio bem definido numa cultura de mulheres e homens informados, auto-conscientes e livres de deslumbramentos imediatistas ou esterilmente hedonistas. Há um teísmo simbólico, embebido de memória, culturalidade e ancestralidade, cujo valor socio-cultural ultrapassa as questões da "metafísica da mesa de café". Somos herdeiros de uma longínqua (mas não perdida) cultura em que os ciclos naturais, e a própria natureza, eram interpretados e transmitidos numa concepção de personificação divina, que celebrava a relação simbiótica do homem com o resto da natureza (natureza mãe, Deusa mãe). Porque o ser humano é, ele próprio, uma personificação consciente da natureza que lhe deu lugar e tempo. Seremos, de certa forma, "Deuses vivos" da nossa própria existência, nem sempre à altura desse papel, porque nem sempre conscientes da importância vital do mesmo.


[*] - é aqui notória e óbvia a intenção de desconstrução de um testemunho de Deus que assentaria em ambiguidades e inverosimilhanças práticas várias. Mas dou cada vez menos crédito aos "iluminismos" mais preocupados com questões formais do que com questões essenciais (nomeadamente de implicação social), estas sim mais ligadas a projectos humanizantes (e não castrantes da natureza humana equilibrada e equilibrante, porque derivada de uma ancestralidade estruturante) do que as outras. Mais do que entrar em discussões de transcendência metafísica, importaria discutir as congruências de uma moral divorciada do entendimento leigo e da legitimidade de uma Igreja que internamente, como instituição, não foi capaz de se depurar de interesses e maus hábitos ocultos que grassaram à sua sombra (manifestados em casos como o do célebre padre Frederico, de que o filme de Almodovar "La mala educación" é um bom retrato), alimentados numa impunidade secular, e que reproduzem hoje (esses grupos escondidos da Igreja, dentro da própria Igreja, e não só) impunemente e com representações no poder, as tais ameaças a um percurso humanizador que a Igreja viva (vector de acção da boa vontade de sacerdócio e cidadania associados no melhor de uma colaboração no espírito cristão), a mesma Igreja viva que se viu recentemente nas ruas de Madrid, a lutar pela Vida juntamente com a sociedade civil, tem procurado defender através da sua importante obra (citando alguns exemplos: no plano filosófico, S. Tomás de Aquino, Santo Agostinho; no plano humanitário, Madre Teresa de Calcutá).
Quer-me parecer que Saramago teria algo a aprender com uma ideia de Deus, e a instituição católica com Saramago. Pois tanto Saramago como a Igreja, perdidos na digladiação de ideologias e transcendências, esquecem que o pior e o melhor do ser humano existem para além da religião.
A obra de uma ideia de Deus está tanto na liberdade de pensamento dos homens, como Saramago, como na compaixão humanitária de muitos religiosos.


"Procura compreender o que dizem os artistas nas suas obras-primas, os mestres sérios. Aí está Deus." (Vincent Van Gogh)

Rui Santos Silva

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

"Os Indulgentes" por Helena Matos

Os Indulgentes

Público, 2009.10.15

Helena Matos

Convirá que não esqueçamos que a propaganda passa e os factos ficam. E tendem a confrontar-nos muito mais tarde

Cena 1. O cineasta Roman Polanski foi preso na Suíça sob a acusação de ter mantido relações sexuais com uma menor de 13 anos, nos EUA, em 1977.

Cena 2. Frédéric Mitterrand, ministro francês da Cultura, mostrou-se indignado pela detenção de Polanski que diz motivada por "uma antiga história que não tem realmente sentido". Face às críticas daqueles que recordavam que a dita história sem sentido incluía sexo e consumo de drogas com uma criança Frédéric Mitterrand respondeu que "o trabalho de um ministro da Cultura é defender os artistas na França". Cabe perguntar: e se fosse camionista, o ministro dos Transportes defendê-lo-ia?

Cena 3. Com quatro anos e meio de atraso sobre a data de publicação da obra, jornalistas e políticos lêem a autobiografia de Frédéric Mitterrand. Nesse livro o agora ministro francês da Cultura dava conta do seu hábito de pagar "a rapazes" na Tailândia.

Cena 4. O eurodeputado Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do Maio de 68 em França, critica Frédéric Mitterrand pela sua tomada de posição no caso Polanski que, ao contrário do ministro francês, considera "um problema de justiça". Já sobre o recurso de Frédéric Mitterrand ao turismo sexual provavelmente com menores (ou adultos que, dada a ambiência do turismo sexual na Tailândia, dificilmente poderão ser considerados tão livres quanto o é um adulto que se prostitui na Europa), Cohn-Bendit considerou que as revelações de Frédéric Miterrand são uma espécie de terapia pública.

Cena 5.Voltam a ser referidas as acusações a Cohn-Bendit de comportamentos impróprios com crianças. Os factos remontam aos anos 70, época em que o agora eurodeputado trabalhava nos jardins infantis revolucionários de Frankfurt. As acusações baseiam-se naquilo que o próprio Cohn Bendit escreveu em 1975 no livro Le Grand Bazar que na época não parece ter chocado ninguém.

Se este alinhamento fosse o esboço de um guião, dir-se-ia que tinha demasiadas coincidências. Mas isto não é ficção. É sim o percurso de alguns dos protagonistas de uma geração que era jovem no final dos anos 60. Uma geração que rejeitou a moral burguesa e ocidental e que não só acreditava que ia fazer muito melhor, como acreditava de que pouco havia a aproveitar na sociedade então vigente.

Como é conhecido, o capitalismo, esse eterno reciclador, reservou lugares de destaque e de poder a estes contestatários. Mas o tempo está a pregar uma enorme partida a essa geração, que, enquanto teve e tem um discurso muito severo sobre quem a precedeu, se habituou a ser extraordinariamente indulgente consigo mesma. O que agora os atormenta não é terem chamado libertadores a ditadores, confundido filósofos com chefes de seitas ou, em alguns casos, terem atravessado a ténue linha que então separava a contestação do terrorismo. O que o tempo agora lhes atira à cara através de interpostas crianças é a memória desses anos em que eles gritavam liberdade, façam amor e não a guerra, eram jovens e belos, em que acreditavam que iam ficar para a História, quiçá ser o seu fim e não concebiam sequer que outras gerações os julgariam. Com as suas enormes diferenças, o drama de Daniel Cohn-Bendit, Frédéric Mitterrand e Roman Polanski é que tudo aquilo que agora lhes é atirado à cara foi senão aprovado pelo menos razoavelmente tolerado em determinados períodos. Basta pesquisar nos arquivos dos jornais, sobretudo dos franceses, para encontrarmos referências aos abaixo-assinados subscritos pelos intelectuais nos anos 70 pedindo a libertação de pedófilos que então não eram vistos enquanto tal, mas sim como contestatários da repressão burguesa da sexualidade infantil.

Contudo, o que impressiona em 2009 não é tanto o que se diz, fez ou escreveu há 30 anos, mas o constatar-se a disponibilidade para novamente, em nome da libertação dos adultos, tomarmos sem grande reflexão decisões que não sabemos como podem interferir com as crianças por elas afectadas. O caso presente da adopção por casais homossexuais é um exemplo disso mesmo. Que dois homens ou duas mulheres queiram ver reconhecida a sua união como casamento é uma questão entre adultos. Bem diferente é uma sociedade assumir que no futuro existirão crianças que serão identificadas como tendo dois pais ou duas mães. Como irão reagir a isso?

Ao contrário do que por vezes se sugere, não vejo que alguém fique homossexual por ser criado por homossexuais - aliás, se assim fosse não existiam homossexuais, pois até agora todos nascemos em famílias heterossexuais -, como nem sequer me parece que essa seja uma questão relevante. O que está em causa é que da nossa identidade fazem parte as figuras de pai e de mãe. Daí a luta no passado contra a existência de mães e pais incógnitos. E não deixa de ser sintomática desta necessidade a história muitas vezes reconstruída pelos filhos dos divorciados acerca do pai e da mãe, não raras vezes com grande injustiça para os padrastos e madrastas que lhes fizeram as vezes.

Convirá que não esqueçamos que a propaganda passa e os factos ficam. E nestas matérias os factos tendem a confrontar-nos muito mais tarde. Nesse desagradável momento arranjar uns bodes expiatórios como está a acontecer agora com a geração de 70 dá jeito aos indulgentes. Mas na verdade não é muito leal.

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Poesia II - Sim, ouvi a chamada a Ulisses…

Ouvi a chamada a Odisseu.
Parténope canta e chama: suas metades em si alter(n)adas cantam. Não é contudo Parténope quem canta, mas as feridas de Afrodite em si que cantam. Cala a mulher, canta o sirénico. E chama. Clama…
Os alter(n)ados marinheiros vão. Alter(n)ados corpos alter(n)am mentes em sucessivos passos. Em sucessivos passos para a ilha num progresso alter(n)ado.
Num despertar sirénico de Aristipo, a fragosidade crua da perda das ilusões nos rochedos espera. Mas a deleitosa submissão estéril não os deixará sentir o esquecimento anterógrado do fim das ilusões do seu tempo. Será o canto simultaneamente o seu fim e a sua bênção.
A cada era, um tormento. Na nossa, os rochedos sirénicos.
A terra quem for de terra, no barco quem for de mar. Velas e vento ao mar dos resistentes, que nos levará às ilhas que se seguirão - a outras eras, a outros tempos, a outras vontades.
Alternância e sucessão, de porto em porto. São o jogo da vida. O preço que todo o navegante paga pelo direito à sua liberdade: a viagem das alternâncias. E em contraponto, a prerrogativa da resistência, da memória e da vontade.
Não é pela força humana que se desfazem os sortilégios dos deuses, ou se salvam marinheiros de sereias: alter(n)ados que colhem da vida. Pois o mito reza que é na superação do seu canto que seu desencanto se desencerra. Cantemos, então.


Rui Santos Silva
Porto, 12 de Outubro de 2006

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

As novas censuras

Livros sobre ex-gays excluídos de algumas livrarias americanas. Está instalada a discussão sobre a marginalização dos discursos que questionem a homossexualidade.

Ver transcrição da notícia:

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American Library Association Urged to Include Ex-Gay Books in Banned Books Week

October 6th, 2009 Posted in Censorship, Healing, Homosexuality, Proselytization

Source: Tips-Q

In recognition of the goals of Banned Books Week by the American Library Association (ALA), Parents and Friends of Ex-Gays & Gays (PFOX) is requesting the ALA to include ex-gay books in its annual promotion of ALA’s "celebration of the freedom to read" program.
"For several weeks, PFOX has attempted to secure a statement from the ALA opposing the censorship of ex-gay books," said Regina Griggs, executive director of PFOX. "According to Deborah Caldwell-Stone, director of the ALA’s Office for Intellectual Freedom, ALA policy recommends diversity in book collection development by libraries, regardless of partisan or doctrinal disapproval. However, Caldwell-Stone refuses to state whether that diversity policy includes ex-gay books."
"Books about leaving homosexuality are censored in most high school libraries, although gay affirming books for youth are readily available," said Griggs. "For example, Charlie Makela, supervisor of library services for Arlington County, Virginia public schools, rejected PFOX’s donation of ex-gay books although she accepts books from gay groups. Ms. Makela is also the chair of the ALA’s Supervisors’ Section of the American Association of School Librarians. Shouldn’t the ALA enforce its own diversity policy?"
"Ex-gay books are also not made available in many community public libraries," said Griggs. "The libraries in West Bend and Beaver Dam, Wisconsin will not accept our donation of an ex-gay book for children, although these libraries circulate several picture books with gay themes for children."
"According to the ALA, the freedom to access information and express ideas, even if unorthodox and unpopular, is the reason for its Banned Books Week," said Griggs. "Every week is a banned books week for the ex-gay community."
"The ALA has also issued numerous sexual orientation policies calling for all librarians to resist excluding books about ’sex, gender identity, gender expression, or sexual orientation.’ But do these ALA policies include former homosexuals? PFOX urges the American Library Association to clarify its policies to be more inclusive and diverse. The ALA can stop censorship in our nation’s libraries by starting with its own policies."

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sábado, 26 de Setembro de 2009

Ao Vicente em nós

"Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao criador -, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu."

Extraido do conto "Vicente", no livro "Bichos" de Miguel Torga.

Uma homenagem ao Vicente, ao Fernão Capelo Gaivota, que vive dentro de cada um de nós.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

O delírio dionisíaco de Sócrates

Na mitologia grega, Zeus e Semele concebem Dionísio. Mas à morte de Semele, Zeus incorpora o feto de Dionísio na sua própria coxa, onde conclui a gestação, tornando-se assim Zeus simultaneamente pai e mãe de Dionísio.
Órfão, não de Sémele, mas da verdade e da ética, e não gestando na coxa de Zeus, mas no esconderijo do apoio paternalista de Mário Soares, Sócrates conseguiu distrair o efeito boomerang que a acção da sua própria máquina de propaganda produzia. Remetendo para a primeira linha mediática outras vozes do partido, Sócrates foi assim gestando a custo numa fase final da campanha eleitoral em que, sem essas protecções (e sem o fruto das "moscas por cordas" que a sua máquina de propaganda foi conseguindo colocar na comunicação social), se reduziria inevitavelmente aos paroxismos do jogo de palavras e de incoerências em que apostou. Compreensivelmente, um "Dionísio" assim concebido e desenvolvido não poderia almejar mais para a nossa sociedade do que um "êxtase dionisíaco".
O socratismo está no fim, independentemente do resultado das eleições. E os históricos do PS sabem que não explicitar uma união em torno de Sócrates neste momento seria como decepar precipitadamente da árvore partidária um ramo que inevitavelmente irá cair. Soares nunca conseguiu disfarçar uma certa formalidade. No mesmo espírito, Alegre afirmou a um repórter da SIC, numa entrevista dada recentemente na sua residência, uma lapidar e crua alusão ao facto de o apoio se dever, em primeiro lugar, ao facto de ser militante do PS. Sócrates é inevitavelmente olhado pela história do seu partido como o filho pródigo e perdulário que esbanjou, no delírio dos seus projectos pessoais, a possibilidade de fazer precisamente o que é fulcral numa governação profícua: gerir transições e transformações próprias de uma harmonia com a dialética social, procurando sabiamente compromissos entre o possível, o necessário e o inevitável, respeitando as circunstâncias que transcendem os propósitos. Mas delírios dionisíacos não se compadecem com esse tipo de escrúpulos.
Tomemos como exemplo o propalado caso do TGV:
A prazo, o TGV (ou qualquer outro tipo de transporte terrestre de natureza similar, é tudo uma questão de terminologia e concepção técnica) será obviamente inevitável. A convergência de estados europeus para uma federação europeia é um cenário desejável e incontornável. Mas nem sempre o inevitável é premente, ou nem sempre o inevitável, por se-lo, é nuclear numa construção social que se faz obrigatoriamente por fases, e respeitando os ritmos e necessidades de cada estado membro. A precipitação, na voracidade vertiginosa de atingir, no tempo de vida individual, mudanças sociais radicais, redunda sempre em erros, fruto de um extremismo que adultera a eventual bondade ou legitimidade dos ideais inerentes. Em diversas matérias, Sócrates não soube respeitar o presente, desrespeitando e hipotecando assim um futuro que poderia ser o da conciliação tolerante de diferenças. Escolheu a voragem do imediatismo, e comprometeu o futuro. Quis, com um PREC que é tudo menos inclusivo, impor aos portugueses uma identidade que não é a sua, um modo de vida que não é o seu. Representou um poder que terá acoitado más condutas (cuja extensão o conhecimento público não imaginará ainda nem aproximadamente), perseguições, saneamentos morais, censuras, pressões e desrespeitos. Ao homónimo de um filósofo, pedir-se-ia ironicamente uma aprendizagem: a de que há muito mais entre o céu e a terra do que a sua vã filosofia concebe. Já ao heterónimo ébrio, na êxtase de mudanças a todo o custo, não se poderia pedir mais.
Aquele que foi um dos maiores desastres da nossa história recente, o PREC pós 25 de Abril, não consta do livro de lições de Sócrates. Tampouco aprendeu com Mário Soares (que apesar de todas as críticas que lhe possam ser feitas, sempre agiu com prudência e ponderação) que a natureza e a vida têm sempre razão e o seu curso próprio, independentemente dos nossos projectos.
Deveria compreender o significado de uma dialética social, e que uma das suas características consiste na inevitabilidade de o universal estar sempre reflectido, representado - sim, contido - no particular. Em cada um de nós há um universo, um reflexo de um inconsciente colectivo, que não se reduz nem verga a concepções imediatistas, nem manipulando as variáveis que definem as pessoas como seres humanos. São estes conteúdos o último reduto inalienável de uma efectiva consciência de si individual, a sede do que somos verdadeiramente.
Certamente também não sabe que é na dialética que tudo se relaciona. Tanto na sociedade como na natureza, tudo se relaciona mutuamente. Os fenómenos sociais devem ser entendidos em relação com as condições históricas que lhes dão origem, e com as quais estão em interacção. Todos os aspectos da realidade se prendem por laços necessários e recíprocos. E esquecer essa condição é sempre o lamentável fruto do dogmatismo. Um dogmatismo que se impõe, e impôs no seu caso, pelo abuso de poder. O mesmo abuso tirânico que alimenta a satisfação narcísica dos megalómanos. O mesmo abuso de poder que se ergue na edificação da sua concepção de "progresso", em cuja argamassa se encontra o "sangue" dos dispensáveis, dos críticos, dos dissidentes, e a ausência de tudo o que é nobilitante no exercício do poder. Demóstenes dizia ser necessário que os princípios de uma política fossem justos e verdadeiros. Os deste governo nunca foram nem um coisa nem outra.
Abriu-se assim um enorme abismo na sociedade portuguesa. Algo que, usando uma expressão do Prof. Carlos Amaral Dias, é "o abismo do possível". Sendo o possível não só uma promessa de possibilidades prontas a serem exploradas pelo ser humano, pode ser também, na ausência de um imperativo categórico interiorizado por todos e cada um de nós, um abismo que explorará as nossas fraquezas, as nossas vulnerabilidades, a nossa debilidade, tornando-nos reféns dos aspectos mais irracionais da nossa natureza - nomeadamente o não se pensar sobre o agir. Um agir que afecta todos os envolvidos, mesmo os que estão por nascer. Como se todos fossemos participantes de um fórum imaginário, em que tivéssemos que considerar o reflexo das nossas acções e das nossas escolhas em todos os presentes, que seriam assim afectados pelo fruto das nossas decisões.

Na dialética, a luta dos contrários é a unidade dos contrários, e não a sua anexação. Numa citação de uma obra de G. Politzer, evoco o filósofo V. Feldmann, que antes de tombar fuzilado por soldados nazis, pôde gritar-lhes: "Imbecis, é por vocês que morro!". E Tinha razão. Ele lutava tanto pelos oprimidos como pelos opressores. Porque afinal tudo se relaciona.

Post Scriptum: O ser humano é e será sempre um produto das imprevisíveis determinações (tão imprevisíveis quanto a imprevisibilidade cósmica, quanto a aleatoriedade da formação do próprio universo que perplexamente admiramos) que o curso da natureza imporá sempre como forma de vida. Só na mais rebuscada ficção científica se poderia alguma vez conceber controlar aquela realidade indefectível. Se um dia acordássemos na posse de um tipo de "algoritmo divino" que nos permitisse considerar todas as variáveis envolvidas na vida universal, e nos desse previsões exactas do rumo que iríamos tomar num dado momento, bem como dos acontecimentos que nos pudessem afectar, que iriam ao máximo do que a virtualmente infinita combinação
probabilística permitisse, dessa forma, manipulando as variáveis que fosse necessário manipular, poderíamos escolher rumos certos e inequívocos no sentido de uma espécie de travagem do movimento perpétuo (no sentido do que o budismo chama de 'nirvana') onde o sofrimento e a diferença não mais existissem. Quase como o exponenciar de um atitude fenomenológica (de que nos fala M. Ponty), mas aqui elevada até aos píncaros do infinito, abarcando o inabarcável. Contudo, seria esse o território da não existência. Seria esse o corolário do empobrecimento artificial da vida - de uma vida que floresce e singra, fértil e rica, quando sabemos mimetizar a nossa própria origem; como um filho imita o pai, e uma filha a mãe - . Uma perigosa recriação quotidiana de uma atitude niilista ancorada num "vale-tudo dostoievskiano", acicatada pela atitude de quem se identifica com um existencialismo irresponsável, porque ultra-subjectivo, apenas consistiria em perturbar o imperturbável, deixando vítimas pelo caminho. A evolução e o progresso nunca poderiam passar pela supresão artificial de diferenças, nem pelo controlo contra-natura das condições em que a natureza acontece. Não comporta a tentação totalitarista e absolutista de eliminar a diferença, tipificando todos os seres humanos à imagem de um qualquer modelo, ignorando assim a nossa própria indómita e ancestral matéria prima natural. Os caminhos da humanidade trilhar-se-ão sempre pelas estradas múltiplas e confusas da aleatoriedade natural, da alternativa evolutiva que se manifesta na diversidade, como a ramificação se manifesta recursivamente no tronco que lhe serve de base. Esses são os desafios da vida e de ser vivo.
Mas estas são contas de outro rosário, que terá daqui a não muito tempo, neste blog, um lugar para discussão. Uma discussão sobre a vida, sobre os percursos evolutivos do ser humano, e sobre as tentações tecnocráticas e absolutistas de alguns nichos da nossa sociedade em assumirem o papel de "arquitectos do ser humano".

Post Post Scriptum: No frenesim de recrutar nichos de eleitores que melhor poderia instrumentalizar afectivamente, Sócrates esqueceu temas como os da despenalização da prostituição e do consumo de drogas leves, que envolvem consequências penais absolutamente lamentáveis e desnecessárias. O paladino do "progressismo" não fez, em toda a campanha eleitoral, uma única alusão acerca desses flagelos sociais. E não o fez pela simples razão de que não colhe votos. Afinal, na tolerância e na igualdade, uns são filhos e outros enteados.

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Temos Presidente

José Manuel Fernandes apresentou no Público de hoje um resumo dos acontecimentos relacionados com o caso das escutas em Belém, através do qual se consegue ter uma ideia clara e sucinta acerca da sucessão de acontecimentos em que o jornal Público acabou por ser um dos protagonistas, e não pelas melhores razões.
Apesar do muito que já foi dito e escrito sobre o assunto, julgo haverem aspectos dignos de alguma reflexão:

No turbilhão de atribuições de culpa e julgamentos precipitados, o aproveitamento político entrou inevitavelmente em cena. E quanto a isso, se alguém houve que pudesse ter sido afectado pelo caso, esse alguém não é seguramente Manuela Ferreira Leite, que nunca se envolveu nesta questão, apontando sempre para a diversidade de problemas de que a nossa sociedade e o nosso país padecem, direccionando sempre a atenção para essa discussão. Também não é seguramente a credibilidade sólida do nosso Presidente da República que é afectada. Na realidade, se algo há que tenha sido ironicamente afectado pelas artificiais ondas de choque urdidas neste caso, terá sido o jogo de auto-vitimização em que o PS socratista é tão useiro. Basta recuar pouco mais de um mês para constatar que o transporte deste caso para a campanha eleitoral foi feito pelo próprio PS. Teria sido uma boa estratégia do executivo de Sócrates, se os portugueses fossem amnésicos ou distraídos, se não soubessem que é Sócrates quem lida muitíssimo mal com a crítica, inclusive aquela que pode decorrer legitimamente da acção presidencial, e se não percebessem que obviamente foi o PS que atacou temerosa, preventiva e cirurgicamente a Presidência quando os socialistas José Junqueiro e Vitalino Canas vieram insinuar (ver notícia do jornal SOL nesta ligação: http://ivosi.notlong.com/ ) que existiam assessores de Cavaco Silva a colaborar no programa eleitoral do PSD. Não fazendo a apologia da política rendida ao marketing e à propaganda, que me repugna moderadamente, fico surpreso mais uma vez com a forma como um staff de marketeers tão caro como o de Sócrates possa descurar essas pontas soltas dentro do próprio PS.
Definitivamente, algo terá acontecido. Fernando Lima te-lo-á sabido, e o Presidente também. E aquele ataque preventivo (não mais do que uma fuga para a frente) das forças socratistas também poderá ser disso um indício (também no aproveitamento político se pode aplicar a máxima "quanto mais perto do mal, mais a salvo se está"). Se o Presidente da República adiou a sua acção relativamente a este caso, poderá ter sido precisamente para reduzir ao máximo a sua influência nos resultados destas eleições. Pois Cavaco Silva sabe que, qualquer que fosse o resultado eleitoral, o seu estatuto (muito acima de climas e marés) permitiria intervir a qualquer momento. E será isso que irá inevitavelmente acontecer, para além da disputa partidária, para além das eleições e seu resultado. Na consagração da separação de poderes, e em nome da democracia e do exercício de poder com responsabilidade no nosso país. Desta forma o Presidente da República terá, com a têmpera da sua serenidade, reforçado a sua autoridade, contrariamente a alguns comentários. Não era sustentável, no entanto, dado o rumo mediático com atropelos deontológicos que o caso proporcionou, manter na linha de fogo da responsabilidade pela comunicação da Presidência, um homem fragilizado pela exposição e pelo caos que se gerou. Ter aliviado Fernando Lima das suas responsabilidades foi um acto de generosidade por parte de um Presidente da República que mostrou assim não temer os ataques de aproveitamento político que sabia que provavelmente se iriam seguir. O Presidente saberá que, a cair alguém, no melhor interesse da credibilidade internacional de Portugal, é preferível que caia como candidato derrotado do que como Primeiro-ministro. O Presidente sabe-lo-á bem, e dessa forma mostra estar à frente dos acontecimentos, algo a que provavelmente não estaremos a dar o devido valor.
Tal como disse hoje Luís Filipe Meneses, o PS «está a fazer um hábil aproveitamento desse incidente», mas essa "ajuda não vai chegar".

Temos Presidente. Sempre tivemos, aliás. Mas teremos no PS alguém capaz de provar as insinuações de José Junqueiro e Vitalino Canas? Desta vez parece-me que nem o valoroso e sóbrio ministro Augusto Santos Silva (uma das várias figuras que prova que há PS para além do socratismo - o tal PS de Alegre...), seja capaz de o fazer.

Post Scriptum: Exprimo a minha opinião como mero exercício de cidadania e liberdade. Não sou militante do PSD. Acredito numa atitude ecléctica, que recolhe de todos os quadrantes políticos o melhor que têm a oferecer em prole do país. Por isso, essencialmente na linha da democracia liberal, voto principalmente em pessoas. E votarei na única pessoa capaz de destronar o presente governo, que é uma mulher chamada Manuela Ferreira Leite. Se os portugueses caíssem duas vezes no mesmo erro, voltando a eleger Sócrates, não seriam já ingénuos, mas irresponsáveis. E isso é algo que os portugueses não serão, pois terão a capacidade de perceber o que convém a quem, saberão acompanhar e interpretar a sequência de acontecimentos passados e vindouros, saberão duvidar das aparências, não ficando pelo superficial. Saberão que é pela coragem, pela frontalidade, pela razão, pelo desapego e descomprometimento relativamente ao próprio benefício, que alguém se torna credível, e não só pelo lugar que ocupa.
Ao nosso Presidente da República, que já foi dos melhores governantes de Portugal, confiaria o meu próprio destino. Já a este governo dificilmente o faria para além da medida em que sou, por razões óbvias, obrigado a faze-lo até ao próximo dia 27.

Post Post Scriptum: Gostei de ver os "Homens do PSD" em torno da sua líder. Num comportamento de união, superioridade... e humildade também.

quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

A insustentável leveza do Jardim

Alberto João Jardim é, sem dúvida, a personificação mais acentuada de um tipo de irreverência e impertinência, cujo ónus só ele mesmo conseguiria suportar, ficando ainda com troco para investir nas farpas seguintes.

Quer se concorde com Alberto João Jardim ou não, quer se goste ou não da sua personagem (personagem que assume muito eficientemente), há que admitir que tem um mérito: o de arrastar algumas vozes para o palco da contradição ridícula.

Os mesmos que durante quatro longos anos nada fizeram para libertar a Madeira do suposto jugo que a oprime, são os mesmos que, em vésperas de eleições, procuram capitalizar popularidade atacando Jardim e quem dele se aproxime, evocando o gasto nome da transparência democrática. No discutir e no criticar, até aí, está tudo muito bem. Mas a veemência com que o fazem varia na razão directa do oportunismo político. E se, para além dos discursos de ocasião, nunca a preocupação com o povo da Madeira se traduziu em acções consequentes contra o seu suposto opressor, é porque Jardim dá jeito! Dá jeito para ser a figura controversa que ele próprio sabe que tem que ser, dá jeito como garantia de estabilidade numa ilha de realidades ambivalentes e muito diversas; dá jeito para, com o sorriso jocoso que só ele faz, aligeirar o peso da responsabilidade que só ele tem suportado, e das verdades que nem às paredes deve confessar; dá jeito para, com a sua diplomacia tropical, tornar mais seguros os passos de quem, depois de uma legislatura a dirigir-lhe críticas, toma inevitavelmente a rota daquela ilha para o agradecimento obrigatório, acanhado e não excessivamente explícito - os passos de quem se financia por aquelas bandas. Ora, foi precisamente o caso de José Sócrates, que afirma saber o que outros fizeram no verão passado, mas não consegue recordar-se do que ele próprio fez neste verão (ver notícia da visita de Sócrates à Madeira em Maio passado nesta ligação: http://bit.ly/LEz37 ), tendo gratamente ido até à Madeira colher as oportunas flores do seu solo rico em mais do que mera propaganda.Mais uma vez, a incoerência existe, e a proximidade temporal torna a clivagem de atitudes de Sócrates, no limite, ridícula.
Dizer mal de jardim tornou-se chique. Fica bem! Enaltece a imagem e branqueia o carácter de quem o faz.Evidentemente que não é ilegítimo criticar Alberto João Jardim e os seus óbvios excessos, mas é ilegítima a intenção das opiniões que algumas personalidades do PS socratista, nomeadamente a do próprio Sócrates (é saudável distinguir o PS socratista do PS de Manuel Alegre) têm vindo a produzir.
Em campanha eleitoral, falar da Madeira faz-me lembrar o jogo do túnel que a garotada malandra jogava na escola: todos lá tinham que passar, todos lá levavam estaladas, e todos batiam em quem lá passava. Verdadeiramente digno de garotos. Todos atacaram Manuela Ferreira Leite por ter ido à madeira visitar o seu eleitorado, afirmar a sua presença sem ter feito disso mais do que isso é: uma visita aos eleitores. Critique-se pois a utilização do carro do governo regional, mas a inadequabilidade dessa cortesia deveria, quando muito, ser imputada ao anfitrião, e não ao convidado. Critique-se a teimosa reeleição de Jardim e o "asfixiante" facto de que o grosso dos seus eleitores são obviamente funcionários do governo da ilha. É saudável que se discuta e critique tudo isso. Mas não se impute a responsabilidade desse fenómeno "autóctone" a Manuela Ferreira Leite. Nunca ouvi essas vozes criticar a "asfixia", essa sim, de quem tenta e não consegue produzir riqueza em Portugal continental, porque está por lei obrigado a financiar os vícios e inutilidades de um estado pesadíssimo, sem a oportunidade de recorrer, como faz o próprio estado (para quem alguns membros do PS trabalham presentemente), aos recursos da zona franca da madeira, cujo offshore movimenta 7500 milhões de euros sem quaisquer impostos.

Jardim é incomodo, é bronqueiro, é festivaleiro, e já se definiu um dia como "uma velha rameira da política", mas é também afinal, nas palavras do socialista Jaime Gama, actual cabeça de lista do PS às legislativas pelo círculo de Lisboa, «um exemplo supremo na vida democrática», tendo este ainda destacado que o progresso existente na região autónoma da Madeira «é um trabalho notável, é uma conquista extraordinária, é uma obra ímpar e isso deve ser reconhecido».Não está em causa Jardim, não está em causa Manuela Ferreira Leite, não está em causa a ilha da Madeira, tampouco a escorregadia temática dos offshores, que não é prática exclusiva em Portugal. Está em causa a incoerência da pessoa que, de entre todas as vozes que se ergueram para criticar Manuela Ferreira Leite, devia ter medido melhor a consequência das suas declarações, nomeadamente à saída dos desconcentrantes debates televisivos. E essa pessoa é Sócrates.

A Madeira é um Jardim, e a sua leveza, para quem não pensa antes de falar, é insustentável.

domingo, 6 de Setembro de 2009

"A mulher de César" ou "Sherlock Holmes e o estranho caso da Prisa escondida com o rabo de fora"

- Holmes, um caso deveras intrigante envolve o governo português, eleições, um caso de corrupção que envolve o actual primeiro-ministro, e o suposto silenciamento da jornalista que conduzia a respectiva investigação.
- Sim, Watson... - responde Holmes - E quais são os factos?
- Passarei a enumerar resumidamente. A TVI é o canal televisivo onde era exibido, às sextas-feiras, o Jornal Nacional. A Media Capital é a empresa que detém o canal TVI, que por sua vez é controlada pela espanhola Prisa, representada por José Luis Cebrián. Por sua vez, a Prisa tem conhecidas ligações ao PSOE (Partido Socialista Espanhol) de Zapatero, aliado político de Sócrates. No início deste ano, Manuela Moura Guedes, a jornalista afastada, noticia o célebre caso Freeport, no qual é referido o actual Primeiro-Ministro português, na altura Ministro do Ambiente, como estando envolvido juntamente com familiares seus, em corrupção por favorecimento ilícito à entidade construtora do empreendimento FreePort em Alcochete. Entre outros envolvidos, contam-se o antigo Presidente do Instituto de Conservação da Natureza (ICN), o antigo Vice-Presidente do ICN e ex-consultor da Câmara de Alcochete, e o antigo Presidente e actual vereador socialista da Câmara de Alcochete. No seguimento desse caso, Pina Moura, ex-ministro e ex-deputado socialista, abandona a administração da Media Capital. Durante os meses seguintes, em congressos e entrevistas à televisão, Sócrates critica furiosamente o Jornal Nacional, até ao limite do insulto pessoal. Nesta semana a administração da Media Capital afasta a Manuela Moura Guedes, e suspende o Jornal Nacional, alegando "homogeneização da informação". A Entidade Reguladora para a Comunicação Social tece duras criticas à irregularidade da suspensão, referindo uma eventual não renovação de licença de emissão à TVI como penalização. Sabe-se que tal facto seria demasiadamente inconveniente à Prisa, que se bate com problemas financeiros, o que de facto advoga a favor da ideia de que só uma pressão tão forte quanto os interesses que a motivassem poderia levar a Prisa a tomar uma decisão que poderia comprometer seriamente o seu futuro. Sabe-se também que José Eduardo Moniz referiu o desconforto manifestado por José Luis Cebrián, acerca do caso Freeport, em reuniões do conselho de administração da Media Capital. O que acha de tudo isto Holmes?...
- A resposta é evidente, Watson. Obviamente que o silenciamento da jornalista da TVI foi feito a pedido do governo português.
- Mas Holmes, não acha que existe uma nebulosa situação de posições e afirmações não assumidas, juntamente com factos que podem não estar necessariamente relacionados com o acontecimento? Não será um julgamento precipitado?
- Se o ajudar, façamos como no poquer, Watson...
- Como assim, Holmes?
- Deitemos fora algumas cartas da nossa mão, mas sem receber novas. Facilitemos o nosso raciocínio centrando-nos no que é nuclear, depurando a questão central de factores dúbios e, para já, não verificáveis. Fiquemos apenas com o essencial num crime, que é a manifestação da culpa através das entrelinhas. Mesmo ignorando a afirmação não comprovável da jornalista Manuela Moura Guedes, segundo a qual terá sido o accionista principal da Prisa a ordenar o seu afastamento, existem outros factos pertinentes. A Prisa tem conhecidas ligações ao PSOE (Partido Socialista Espanhol) de Zapatero, aliado político de Sócrates. Em Janeiro deste ano Manuela Moura Guedes inicia a investigação do caso Freeport, e no mês seguinte Pina Moura, socialista, abandona a administração da Média Capital, gesto revelador da sua posição perante a sombra socratista no seu partido, bem como do seu escrúpulo ao evitar ter um papel de veículo de pressões administrativas sobre liberdade de imprensa, para os quais deve ter sido sondado. Há gestos, Watson, que valem mil palavras. Sabemos que o fulcro da reportagem que precipitou a decisão da Media Capital assentava na revelação de novas informações acerca da ligação de Sócrates ao caso Freeport...
- Mas nada disso materializa motivação, Holmes - Interrompe Watson.
- Motivação, Watson... - retorque Holmes, numa lassidão acompanhada pelo lento gesto com que fazia pairar o seu cachimbo por entre as espirais de fumo. - Num apertado período de tempo em que a incerteza acerca dos resultados eleitorais nas urnas poderão velar uma possível derrota
socialista...
- Mas Holmes, como pode ter a certeza disso?
- Não tinha, meu caro. Mas como em muitos outros casos, em que certezas não haviam mediante a irredutibilidade das pistas disponíveis, após uma análise distanciada e isenta, foi sempre a confrontação dos protagonistas com a exposição pública da realidade que tornou possível à solução revelar-se através das reacções que os próprios prevaricadores iam produzindo ou, mais significativamente ainda, não produzindo. Pior que uma má consciência é a preparação do terreno para a má conduta, quer por acções, quer por omissões. Neste caso, caro Watson, aplica-se um princípio quase salomónico, segundo o qual normalmente, e na dúvida, devemos inclinar-nos para achar que a razão estará do lado que tem menos poder. E neste caso, Watson, onde está o poder?
- Com quem governa, Holmes, presumo.
- Precisamente, Watson. Com quem detém a capacidade de usar o seu poder em próprio benefício. O poder ao serviço de quem o detém. E neste caso ao serviço do governo e da máquina de suporte de decisão que, no âmbito daquilo para que é paga, certamente não descuidaria cautelas com um permanente foco de descredibilização pública da sua acção, um foco sempre renovado de crítica às manifestas faltas do governo. Essa fria e calculista máquina aplicou aqui a medieval "lei do mal menor", segundo a qual seria preferível o escândalo decorrente do silenciamento de uma jornalista, sacrificando assim a mulher de César as suas aparências, mediante a alternativa da incógnita relativamente ao que, através da mesma jornalista, poderia vir amanhã a explodir-lhes na face. Manter o Jornal Nacional no ar, com todos os malefícios que isso pudesse trazer ao fulcro da estratégia deste executivo, que é a credibilidade já exangue do primeiro-ministro, ou silencia-lo, com a hipótese de que, na ausência de provas cabais, que assentassem em mais do que meras especulações acerca da sua responsabilidade nesse silenciamento, tal ainda lhes permitisse inverter o gume da faca, num jogo de auto-vitimização.
- Tão simples, de facto, Holmes. Como será possível sequer ter dúvidas neste caso?... Por exclusão de partes, e pela lógica, foi uma "Prisa escondida com o rabo de fora" a servir de charneira entre os interesses de um PSOE de Zapatero e um PS de Sócrates, cujos mútuos favores obviamente não ficam por aí... O primeiro ministro terá solicitado o silenciamento de uma jornalista por achar que o silêncio é sempre menos perigoso do que uma voz desobediente.

Holmes sorri enquanto observa pela janela a azáfama habitual de Baker Street. A expressão do seu sorriso traduzia a ironia do seu pensamento meticuloso, e o brilho aquilino do seu olhar, o fascínio sempre renovado por um cenário imutável mas simultaneamente efémero e irrepetível.

- Elementar, meu caro Watson. Elementar. - e torna à circulação frenética da artéria citadina, que contempla com atenção difusa. Lá em baixo, as vestes escuras e outonais de quem dava o corpo à chuva movimentavam-se num prenúncio que ignoravam, absorvidas na curta amplitude de pensamento possível em quem foge ao frio e ao tempo, tão esquecidas da alvura da neve que se avizinhava como alheadas da sua própria identidade.


Rui Santos Silva

sábado, 5 de Setembro de 2009

Poesia I

Senhora da vida


Sou filho da viagem e da estrada,
Do sal atlântico que rasga as gretas no pasmo arenado do nosso impreparo.
Em todas as terras vi.
E de todas as fontes ouvi o chilrear de cantos antigos, e lhes bebi a minha essência gémea.

Sou filho das feridas profundas,
Do rúbro grito que abraçou o estilete de granito em queda, e o marcou como marcado eu era.
De toda a luz me fiz.
E a todas as eras perguntei por esta vontade, respondendo-me na expressão cérea do tempo a imortalidade.

Sou filho da terra.
Regresso-te, recolho-me e me acouto no teu colo, e na osmose do ritual que compomos não se tresmalham as almas destes corpos nómadas.
De todos os deuses te quis.
E a todas as fronteiras lançarei o impulso fértil, a celebração da tua maternidade, até em riste expirar.

Na rosa dos ventos de uma consciência tão vasta, como vasto é o nosso alcance, deixo-me fluir,
Pois em cada átomo e em cada vontade que te ofereço, em todo o sopro vital que me sustenta, encontro-te.
E em nenhum me perco, porque no fim, como no princípio, percorrida a nossa história em todas as eras, és em minha vida meu querer,
E na tua sou eu minha entrega.

Rui Santos Silva
Porto, 16 de Agosto de 2009

rui.santos.silva@sapo.pt

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Sobre alguns comentários relativos ao debate Jerónimo/Louçã

Jerónimo e Louçã concordaram, e rapidamente observei a manifestação de quem se sentiu defraudado por não ter tido espectáculo e jogo.Observo também que serão os apologistas da diferença pela diferença, e não da diferença com fundamento, que se desconcertarão com a sintonia em questões essenciais entre PCP e Bloco.
PCP e Bloco são a voz de um pensamento diferente e democrático, e quem se recordar da fundação da nossa democracia compreende que sem a sua existência a democracia não existiria.São representantes de uma génese ideológica e histórica distinta. Mesmo irmanando-se num período em que a luta pela sobrevivência das ideologias unia necessariamente os perseguidos pela ditadura, são ainda assim expressões diferentes e contribuições complementares para toda uma esquerda.
Creio que observei a um debate entre dois homens que celebram a diferença de pensamento sem o culto da inconsequência, a diferença construtiva, contrariamente à destrutiva; a diferença pela necessidade intrínseca, que é verdadeiramente diferença, sem necessidade de anexar ideologicamente o outro.
Não sou de esquerda. Mas digo-o porque de outra forma trairia a esquerda que também a mim me formou, e ensinou que nada há de razoabilidade, lógica, ou valor quando está implicada a repressão e extinção do outro.Há obviamente na esquerda valores e ideias com as quais concordo, como a certeza de que reprimir é inconsequente, que nos recordam que o
grande desafio humano é, na inevitabilidade de ter que se coexistir com a ideia de poder, aprender a lidar com o poder que nos foi dado, e com as tentações totalitárias e absolutistas que o mesmo suscita (especialmente aos de constituição ética mais débil, aos reféns da satisfação dos próprios vícios, em detrimento do amor pelo que é humanizante e nobilitante), que lutar contra a repressão é legítimo.Estou certo de que é este o pensamento da esquerda crítica e livre de comprometimentos corporativos, e que certamente censurará, na hora certa, os libertacionismos recentes que, não tendo nada a ver com o espírito ideológico dos partidos em que militam, e apesar de serem partidariamente transversais devido à sua agenda de instalação no poder, são um atentado à liberdade.Quem ama verdadeiramente a liberdade nunca se sentou à mesma mesa com o totalitarismo, independentemente das cores, padrões ou motivação que este assume. Porém, se a camaleónica arte dos novos totalitaristas o permitiu, não será, creio, por muito mais tempo.

A diferença pela diferença é uma moda. Como com outras antes desta, passará quando se esgotar o deslumbramento pela sua essência vazia.

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Sócrates entre "personas" ou a arte da sublimação

Escrevo este texto enquanto Sócrates se prepara para responder a Judite de Sousa. Será previsivelmente o chorrilho habitual de lugares comuns e um jogo de espelhos e virtualidades conceptuais, um jogo de alternâncias dentro de alternâncias das "personas" (que designa a máscara no teatro grego) a que vai recorrendo de acordo com os diferentes momentos, e em perfeita consonância com a sua personalidade, e de "sublimações" com roupagens adequadas à maré e à volatilidade dos ecos que o rodeiam: Desde o despudorado não-aperto de mão a Luis Amado, até ao Sócrates altivo e iludido de perpétuas vitórias no que não imaginava ser o desaire das eleições europeias, passando pelo sereno humilde simulado, adivinho este Sócrates com uma assertividade decorada dentro do possível, segura por fios, tentando transmitir a segurança que não sente e as certezas que não tem, recorrendo à deturpação demagógica das palavras dos seus adversários, em especial a que mais teme - Manuela Ferreira Leite (como por exemplo a chalaça dos imigrantes, ou do seu auto-proclamado proto-darwinismo político - o seu desígnio messiânico e progressista que mudará os portugueses à sua imagem e semelhança, em dualismo com Manuela Ferreira Leite a quem aponta atavismos e incapacidades, que confunde convenientemente com aquilo que é verdadeiro).Sócrates confunde conservacionismo bacoco com a protecção legítima ao que tem direito a existir e é um caminho real e não idílico , não tem a noção do que é consevar o que merece ser conservado por ser positivo, fértil e bom, sem que isso se oponha a nada ou a ninguém, num sentimento inclusivo mas responsável, pois move-se no logro de uma emoção de mudança que proporciona o sentimento ilusório de um progresso que o não é na realidade.

quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

As imprevistas dores do imprevisto

As eleições europeias passaram, e com o quase passado mês de Agosto, passa também a tentativa socialista de inverter o princípio do fim do consulado socrático, como se possível tivesse sido inverter um país e o seu espírito (e ao seu espírito, já que de inversões falamos).
Estão feitas as listas de candidatos do PSD às legislativas, e estará, enquanto escrevo este texto, prestes a ser apresentado o seu programa de governo que, contrariamente à verborreia orgíaca do programa do PS, na sua essência recheado de intenções e palavras vãs, porque inconcretizáveis na medida em que pretendem "conjecturar omeletes sem pensar primeiro nos ovos", como quem constrói uma casa pelo telhado, será certamente inspirado no concretizável. Conterá em si, estou certo, um espírito pragmático, oportuno e consequente.No seguimento disto, foi interessante, mas não surpreendente, observar o que, numa lógica construtivista, se poderia designar por "fenómenos de reacção/adaptação/acomodação" típicas em certos sectores de sensibilidade política (e porque não dizer humana): o queixume de algumas figuras ligadas ao PSD (que é algo completamente diferente de uma discussão pertinente e séria acerca das questões que envolvem decisões e estratégias) que me levou a concluir uma auspiciosa realidade - Manuela Ferreira Leite é efectivamente a líder necessária. Quando se esperava que claudicasse com medo de alguns protagonistas, Manuela Ferreira Leite teve a coragem de dizer "Não!" (contrariamente ao artificial discurso afirmativo de Sócrates, com a palavra "Sim!" a articular cada período e frase das suas estéreis e estilizadas cábulas, tentando, numa retórica importada do estilo americano, certamente desenhada pelo staff de marketing político que recentemente encomendou a Washington, tentando simular a competência, a segurança e a assertividade que a prática governativa não lhe conferiu), sem confundir capacidade de compromisso com o assumir de uma posição, estilhaçando velhos equilíbrios podres.O valor de um líder não se afere só através da novidade ou através da renovação pela renovação, mas pela adequabilidade, oportunidade e necessidade das medidas que acabam por se impor. Provou que é capaz de "cortar a direito" e abrir caminho pela densidade de nós cegos que lhe colocam pela frente, com a discrição, frontalidade e coragem que tem que se lhe reconhecer. É uma líder, a sua serenidade contrasta com o fogo de artifício propagandista da pré-campanha de Sócrates.
Ora, e no seguimento das cenas de queixume acima referidas, uma daquelas ilustres figuras foi, percebe-se, Francisco Moita Flores. Moita Flores pertencerá a um grupo de barões políticos que não contavam que a aparente "líder de transição" pudesse tão rapidamente trocar-lhes as contas, ao ascender rápida e imprevisivelmente à condição de mulher primeira-ministra, sendo muito claro hoje para mim que não será a última, e que dada a tenacidade desta líder, as armadilhas que lhe tentem lançar (tanto dentro do seu próprio partido, como fora) esbarrarão na força mobilizadora da sua convicção. Foi risível e patético o episódio da condecoração de Sócrates. Obviamente, o facto de uma câmara municipal agraciar um cidadão a propósito de uma questão
qualquer que respeite à cidade pode ser algo perfeitamente normal, no estrito âmbito da função autárquica. Mas é de uma evidência impactante a existência de um propósito no facto de, com tanto tempo para o ter feito, só e precisamente agora Sócrates tenha sido chamado a receber a medalha de ouro da cidade de Santarém, para dessa forma se assinalar o facto de que Santarém foi ajudada pelo governo (mau seria se as câmaras municipais não fossem tendencialmente ajudadas pelo governo da república a que pertencem) na recuperação de património local com valor histórico. Fê-lo agora porque só agora, e tarde, percebeu a inevitabilidade da líder do partido que o apoia politicamente, e só agora provavelmente embateu contra a dura realidade das sondagens preliminares não propagandísticas (as que não são divulgadas) que lhe terão mostrado que provavelmente o PSD em Santarém subirá em flecha nas votações; isto independentemente de Moita Flores, mas na sequência da demonstração da coragem política de Manuela Ferreira Leite. Pateticamente isso doeu a Moita Flores, que acabou por não conseguir conter a demonstração dessa dor de uma forma surpreendente e inequívoca, afirmando que não votará em Manuela Ferreira Leite nas próximas legislativas. E doeu-lhe essencialmente porque sofrerá de um complexo de "intelectual inconcretizado", que exorcizará através dos argumentos de telenovela que escreve (e bem, acrescente-se), e que não terá suportado a frustração de não ter previsto esta situação, de não ter sido o protagonista que gostava de ter sido na mudança a que está a assistir. Dói-lhe porque o homem que escreveu (e em boa hora o fez, e com muita qualidade, repito) um argumento de uma novela sobre uma grande mulher - Dª Antónia Ferreira, não teve agora, na vida real, a coragem de proteger a grande mulher que é a líder incontestável do partido que o apoiou em Santarém. Por tudo isso lhe dói mais. Moita flores banha-se assim nas águas do ciúme e da triste glória do pequeno poder. E é óbvio que para Moita Flores é fácil afirmar disponibilidade para incorporar uma lista do PS em Santarém nas próximas legislativas, porque sabe que, pelo facto de ser uma das principais figuras políticas do distrito (afinal, é presidente da câmara), só lhe seria proposto, e só aceitaria, um lugar elegível numa lista do PS. Mas não acredito que tivesse sequer a coragem de (como fez José Saramago no PCP) entrar nas listas do PS em lugar não elegível pelo mero apoio político que tanto embandeira, preterindo assim, por inerência, futuras aspirações autárquicas. E não acredito que Moita Flores tivesse a coragem de o fazer por duas ordens de razão: a primeira é que Saramago é intelectualmente honesto, e Moita Flores mostrou que não. A segunda é que Saramago não vive da política, e Moita Flores sim.

Post Scriptum: quantas medalhas terá que receber um primeiro-ministro para fazer aquilo que lhe compete, que é governar? E quantas medalhas necessitará Sócrates de receber para que, na impossibilidade de voltar a iludir o eleitorado, lhe seja suavizada a queda do poder?

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Acerca da legitimidade da medalha de ouro de Caster Semenya

Acerca da legitimidade da medalha de ouro de Caster Semenya Parece-me óbvio que discutir se a jovem Caster nasceu ou não mulher é, no limite, demencial. Mas mais demencial será consentir que se arraste a discussão deste assunto para esse campo, como quem arrasta um moribundo para dentro dos limites da sua citânia ideológica, para bradar aos ventos "Aqui del Rei, que os indiferenciados de género são as vítimas desta era!"Custa-me acreditar que alguém com o mínimo de bom senso precise de inspeccionar a genitália da jovem atleta para concluir acerca do seu género. Pergunto-me se o punhado de jornalistas que tratou esta questão na moldura com que se nos apresentou na comunicação social terão reflectido bem.Se efectivamente as partes implicadas - atletas e dirigentes - pretendem e continuam a pretender que o atletismo se pratique com separação de géneros, então é pertinente a discussão acerca daquilo que possa adulterar a pertinência e o sentido dessa separação. Ou seja, faz sentido saber se uma atleta feminina ganha uma medalha de ouro porque é uma atleta feminina de excepção ou se se terá modificado artificialmente ao ponto de, de mulher, só lhe restarem a genitália congénita e a identificação civil. A atleta compete a nível mundial, logo, está sujeita, e sabe-o, como o sabe quem a acompanha, à discussão pública acerca das dúvidas que possam surgir relativamente à legitimidade dos resultados que possa obter, quando estes sejam aparentemente atípicos. Sublinhe-se: dos seus resultados desportivos, e manipulações anatomofisiológicas que os possam adulterar, e não da sua sexualidade, ou do direito que a jovem atleta tem de, no âmbito da sua vida privada, fazer o que bem lhe apetece ou tentar encontrar o equilíbrio possível no género com que nasceu. Efectivamente, não me parece que quem quer que seja, incluindo os membros da International Association of Athletics Federations (IAAF), esteja minimamente interessado em saber acerca da vida privada ou sexual da atleta. Por mim, é a última das minhas preocupações.Obviamente que pode ser um constrangimento para a atleta ver esta questão discutida em público. Mas quem constrange é quem eventualmente quer transformar esta discussão numa arma de arremesso para outras causas. Revelam assim certos jornalistas a sua falta de isenção, quando reduzem esta questão a uma "regateirice sexualeira", em vez de verem nesta questão uma oportunidade para se reflectir séria e inteligentemente acerca das fronteiras da verdade desportiva e da forma como faz sentido que o desporto de competição seja ou não organizado. Levantou ontem um jornalista da SIC a questão acerca do que acharão, na pequena aldeia de onde provém, os pais da jovem atleta desta discussão ser feita na praça pública. Muito bem. E o que acharão os pais das atletas derrotadas, que treinaram afincadamente durante muito tempo, porventura com sacrifícios pessoais e familiares, acerca da existência de meticulosos processos de adulteração de género com vista à exponenciação da capacidade física da atleta vencedora, processos esses que poderiam e deveriam, esses sim, preocupar os pais da atleta Caster Semenya, muito mais do que qualquer discussão "sexualeira" (sim, porque pode ser feita uma discussão séria acerca de sexualidade e géneros, mas os comentários feitos até agora são um "brejeirismo sexualeiro" acerca de uma questão que tem a ver pura e simplesmente com atletismo) que esteja a ser levada a cabo? E já agora, como simples analogia, o que acharão os pais dos adolescentes que estudam afincadamente durante um ano lectivo inteiro quando a honestidade, o trabalho e a inteligência deles é questionada e aferida através de exames suplementares, quando estes atingem notas muito acima do normal nos exames regulares? Mais importante do que desejar que os nossos filhos não errem e sejam bem sucedidos é desejar que estejam à altura das suas responsabilidades, tanto quando erram como quando são bem sucedidos. Errar ou ser bem sucedido é simplesmente humano. Estar à altura do que nos acontece, é humanidade com excelência.Efectivamente, ninguém me convencerá que a preocupação de quem tem responsabilidade na IAAF seja a de, em última instância, investigar a genitalidade da atleta. É simplesmente ridículo reduzir toda a questão a essa temática. Essa será, sim, a preocupação daqueles que procuram enformar a discussão no sentido que a mesma tomou - esses sim, uns atletas do despropósito.